A história da primeira fazenda urbana de cannabis medicinal de Pernambuco é um verdadeiro testemunho de amor e persistência. Tudo começou com a incansável luta de Hélida Lacerda, mãe de Anthony, um garoto que, aos 12 anos, enfrentava uma epilepsia refratária severa, com episódios de até 80 convulsões por dia. Diante do sofrimento do filho, Hélida não mediu esforços para encontrar uma solução, mesmo quando a esperança parecia pequena.
Em 2015, Anthony usava 15 medicamentos diferentes, mas nada parecia controlar as crises. Foi nesse momento de desespero que Hélida Lacerda ouviu falar sobre o potencial do óleo medicinal de cannabis. A informação era escassa no Brasil, e encontrar um médico prescritor em Pernambuco era um desafio enorme. "Não tinha esse acesso que tem hoje. Então, só tinha aqui em Pernambuco três médicos e poucas informações", contou Hélida em entrevista.
Conseguir o tratamento era um passo, mantê-lo era outro. Um frasco do óleo custava cerca de R$ 600 na época. Hélida já gastava R$ 2 mil por mês com os remédios de Anthony. O custo altíssimo a levou a uma decisão arriscada: começou a plantar cannabis em casa, de forma clandestina. Sob o medo constante de ser presa, ela fabricava o óleo artesanalmente para garantir a continuidade do tratamento do filho.
A história de Hélida rapidamente se espalhou, mobilizando outras mães que viviam dilemas semelhantes. Elas formaram comunidades para trocar experiências sobre cultivo e compartilhar o óleo, criando uma rede de apoio essencial em um momento de poucas informações e muita burocracia. Era um ato de solidariedade e resistência.
A virada legal veio em 2019, quando Hélida Lacerda conseguiu um Habeas Corpus, um documento que lhe garantia o direito de cultivar a planta em casa para uso medicinal do filho. Foi nesse período que ela conheceu Ricardo Hazin, um engenheiro agrônomo. Juntos, eles deram os primeiros passos para fundar a Aliança Medicinal, uma associação que sonhava em estender o acesso ao tratamento a outras famílias.
Segurança jurídica para ajudar mais pessoas
O grande marco da Aliança Medicinal aconteceu em março de 2023. A associação obteve uma liminar de funcionamento, uma decisão jurídica que fez toda a diferença. Diferente do Habeas Corpus, que é individual, essa liminar garantiu segurança jurídica para a Aliança Medicinal operar em grande escala, sem um limite de associados. Essa conquista foi fundamental, baseada no direito à saúde, permitindo que a associação ajudasse um número muito maior de pessoas que precisam do tratamento com cannabis medicinal.
A fazenda da Aliança Medicinal é um exemplo de inovação. Ela não usa solo, mas sim contêineres marítimos reciclados. São 36 contêineres, com 12 deles dedicados exclusivamente ao cultivo das plantas. Nesses "laboratórios", tudo é cuidadosamente controlado: a luz, a temperatura, a ventilação e os nutrientes. É como se criassem estações do ano perfeitas e estáveis para o desenvolvimento das plantas, garantindo a qualidade e a eficácia dos produtos.
Além da inovação técnica, a Aliança Medicinal tem um forte impacto social. A associação faz questão de contratar e capacitar moradores da própria comunidade local para trabalhar no cultivo. Essa iniciativa gera formação profissional em uma área que antes não tinha mão de obra especializada, oferecendo novas oportunidades e dignidade.
Graças a essa logística e ao compromisso social, os óleos produzidos pela Aliança Medicinal têm preços muito mais acessíveis. Os valores variam entre R$ 130 e R$ 500, dependendo da concentração, baseados apenas no custo do tratamento e não em margens de lucro comerciais, como é comum na indústria farmacêutica tradicional. Assim, a luta de uma mãe se transformou em esperança e acesso à saúde para muitas outras famílias em Pernambuco.

