Prepare-se para uma Páscoa diferente neste ano. Os ovos de chocolate podem aparecer menores e com preços mais salgados nas prateleiras dos supermercados. Quem faz o alerta é Marco Lessa, empresário baiano e um dos maiores nomes no reposicionamento do cacau brasileiro no mercado global.
Marco, que é CEO da MVU Empreendimentos e criador de eventos importantes como o Chocolat Festival e o Origem Week, explica que o cenário atual é reflexo de problemas climáticos severos na África, a maior região produtora de cacau do mundo. Essas dificuldades fizeram com que o preço da amêndoa quadruplicasse em pouco tempo, impactando diretamente toda a indústria e, claro, o bolso do consumidor final.
Cacau: Uma Commodity Global Afeta a Páscoa Local
O cacau funciona como uma commodity, o que significa que seu preço é determinado por fatores que vão além da vontade de um único produtor. Os desafios climáticos na África, junto com lavouras mais antigas e menos produtivas, resultaram em uma oferta menor do fruto. Com menos cacau disponível, o preço dispara no mercado internacional.
No Brasil, a situação é peculiar. Apesar de sermos um país produtor de cacau, consumimos mais do que produzimos. Isso significa que dependemos da importação de parte da matéria-prima, muitas vezes vinda da África. Quando o preço internacional sobe, o Brasil sente o impacto na ponta, afetando quem transforma o cacau em chocolate e, consequentemente, quem compra o produto final.
“O ovo de 1 kg vai virar 500g, o de 500g vai virar 300g”, prevê Marco Lessa, destacando a adaptação que a indústria fará.
Essa mudança no preço levará as pessoas a migrar para produtos mais baratos ou a comprar versões menores. A indústria, por sua vez, deve buscar a criatividade, apostando em ovos pela metade recheados, novas embalagens e outros ingredientes para equilibrar o custo e manter o chocolate acessível.
Qualidade que Deixa Marca: O Caminho Sem Volta do Bom Chocolate
Apesar do aumento nos preços, Marco Lessa aponta para um fenômeno interessante: uma vez que o consumidor experimenta um chocolate de alta qualidade, com maior teor de cacau, é difícil voltar para o chocolate comum de mercado. Essa busca por um paladar mais refinado também é um dos objetivos dos eventos que ele promove.
Para os pequenos produtores de chocolate, especialmente aqueles do modelo bean to bar (que controlam todo o processo, da amêndoa à barra), o impacto do aumento no preço do cacau é ainda maior. O custo do ingrediente principal quadruplicou, exigindo maior capital de giro e refletindo diretamente no preço final. Isso pode fazer com que clientes busquem opções mais baratas, mesmo que de qualidade inferior.
A Jornada de Marco Lessa e o Valor do Cacau
Natural de Guanambi, na Bahia, Marco Lessa começou a construir seus projetos em um dos períodos mais críticos da história do cacau brasileiro, durante a praga da vassoura-de-bruxa, que devastou as lavouras do sul da Bahia. Aos 22 anos, ele se perguntava por que o Brasil só produzia a matéria-prima e não investia no produto final industrializado.
Sua visão o levou a transformar o cacau em algo além de uma commodity. Para ele, o cacau é um símbolo de sustentabilidade, protegendo o meio ambiente e gerando um impacto social enorme, com cerca de 100 mil pessoas envolvidas na cadeia produtiva no Brasil.
Além disso, o cacau é um superalimento, rico em antioxidantes — mil vezes mais do que o açaí e 25 vezes mais do que a uva. Marco luta para que a indústria o reconheça por todo o seu valor nutricional e ambiental, e não apenas como um ingrediente para o açúcar.
O empresário estará em Salvador, na Bahia, nos dias 19 e 20 de março, para o The Cake Class Experience, no Wish Hotel da Bahia. O evento é uma oportunidade para discutir inovação, empreendedorismo feminino e o futuro da confeitaria, conectando profissionais e amantes da gastronomia.

