Polícia

Moradores de Itacimirim vivem com medo do tráfico em 'falsas barracas' na praia

Itacimirim, na Bahia, virou cenário de medo. Moradores denunciam que barracas ilegais nas praias servem de fachada para o tráfico de drogas e causam crimes ambientais, afetando o turismo e a segurança local. Ação policial é vista como ineficaz, e a população clama por ajuda do poder público.
Por Redação
Moradores de Itacimirim vivem com medo do tráfico em 'falsas barracas' na praia

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Viver em um paraíso litorâneo, com mar e natureza exuberante, deveria ser sinônimo de tranquilidade. Mas para quem mora em Itacimirim, no Litoral Norte da Bahia, a realidade é bem diferente. O medo da violência, das ameaças e da presença constante do tráfico de drogas transforma o dia a dia, fazendo com que muitos percam a paz e até a liberdade de usar a própria praia. Além da criminalidade, a população enfrenta o acúmulo de lixo e a ausência de fiscalização da Vigilância Sanitária.

Integrantes da Associação de Moradores de Itacimirim (AMI) denunciam um cenário alarmante: barracas instaladas de forma irregular na faixa de areia servem como fachada para o comércio ilegal de drogas. Segundo eles, a situação piorou significativamente a partir de 2024, transformando áreas antes frequentadas por famílias em pontos dominados por facções criminosas.

Barracas que escondem o crime: a praia virou 'biqueira'

As barracas fixas, proibidas pela legislação municipal e federal, são o principal disfarce para as atividades ilícitas. Um morador, que preferiu não se identificar por medo de represálias, explicou a dinâmica do tráfico:

“Essas barracas não são apenas comércio irregular. Elas funcionam como pontos de venda de droga. Hoje a gente convive com homem armado na praia.”

A droga chega por meio de mototáxis, vinda de comunidades próximas, e é distribuída a partir dessas estruturas para ambulantes que circulam pela praia. Além do tráfico, os moradores relatam:

  • Comércio irregular de bebidas alcoólicas;
  • Festas clandestinas na faixa de areia;
  • Total ausência de fiscalização da Vigilância Sanitária, mesmo com manipulação de alimentos.

Outro residente anônimo reforça a denúncia, desabafando sobre a transformação do local:

“Eles fingem que vendem bebida, mas são biqueiras. A praia virou ponto fixo do tráfico.”

A sensação de impunidade e as ameaças

Apesar de ações policiais, a população de Itacimirim, na Bahia, sente que o problema persiste pela falta de continuidade. Em dezembro de 2025, a polícia prendeu três pessoas na praia. Um dos detidos tinha três mandados de prisão e era suspeito de crimes graves, incluindo sequestros em Barra de Pojuca e Itacimirim. Um desses casos envolveu um cidadão argentino, sequestrado em 17 de janeiro de 2025, torturado e forçado a transferir cerca de R$ 100 mil aos criminosos.

No entanto, para a frustração dos moradores, todos os detidos foram soltos poucos dias depois. Essa situação gera uma forte sensação de impunidade, como expressou um dos denunciantes:

“A polícia vai, faz o trabalho dela, mas a Justiça não consegue segurar. Isso dá a certeza de que nada vai acontecer.”

O clima de tensão é tão grande que até as empresas de segurança privada contratadas pelas associações de moradores sofrem com ameaças. “Um segurança foi ameaçado de morte apenas por tirar fotos. Hoje, até quem deveria proteger está com medo”, relata a AMI. Esse cenário afasta famílias, compromete o turismo e muda completamente a dinâmica da região.

Crime ambiental e abandono do poder público

A violência e a insegurança não são os únicos problemas. Os moradores também denunciam crimes ambientais graves. As barracas ocupam áreas de restinga, que são consideradas de proteção permanente, e deixam lixo espalhado pela praia. Isopores, restos de alimentos e outros resíduos são encontrados em meio à vegetação nativa, sem qualquer controle sanitário ou ambiental.

“Não é só desordem urbana. É crime ambiental. É invasão de área federal”, pontua um morador.

A fiscalização da prefeitura, quando ocorre, é vista como esporádica e ineficaz. Depois de notificações e até desmontagens, as barracas ressurgem, muitas vezes maiores do que antes. “Sem policiamento permanente, é como enxugar gelo”, dizem os moradores.

A comunidade clama por uma ação conjunta e coordenada entre a Prefeitura, Polícia Militar, Governo do Estado, Governo Federal, Ministério Público e órgãos ambientais, já que a área de praia é de marinha, sob responsabilidade da Secretaria do Patrimônio da União (SPU).

Denúncias já foram enviadas ao Ministério Público, e uma ação anterior, após recomendação do órgão, chegou a retirar as barracas. Contudo, a falta de manutenção das medidas permitiu que elas retornassem. “A gente só quer voltar a viver em paz e usar a praia sem medo”, finaliza um morador.

O Portal A TARDE entrou em contato com a Prefeitura de Camaçari, Polícia Militar e Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP), mas até a publicação desta matéria, nenhum dos órgãos havia respondido.