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Lavoura cacaueira da Bahia é aliada da Mata Atlântica, aponta estudo

Sistema 'cabruca' no sul do estado preserva biodiversidade e estrutura vegetal, com 45% da cobertura arbórea em áreas analisadas
Por Redação
Lavoura cacaueira da Bahia é aliada da Mata Atlântica, aponta estudo
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A lavoura cacaueira no sul da Bahia desempenha um papel fundamental na preservação da Mata Atlântica regional. O sistema de cultivo conhecido como “cabruca”, que mantém o cacau sob o sombreamento de árvores nativas, é um modelo de produção agrícola que converge com a conservação ambiental, segundo análise técnica.

A expansão das fazendas de cacau entre o final do século XIX e meados do século XX consolidou o sul da Bahia como um polo produtivo agrícola de destaque internacional. Municípios como Ilhéus, Itabuna, Itajuípe e Uruçuca estruturaram suas economias a partir dessa cultura.

De acordo com o levantamento técnico do MapBiomas Cacau (Fase 1), em seis municípios analisados, o cacau sombreado representa cerca de 45% da cobertura arbórea existente. Isso totaliza 1.739,4 km² de cacau sombreado e 2.147,9 km² de floresta nativa não manejada, somando 3.887,3 km² de cobertura arbórea.

Cabruca: um modelo de sustentabilidade

O sistema “cabruca” se diferencia de outros modelos agrícolas que suprimem a vegetação nativa. Embora não seja considerada uma floresta primária intacta, a cabruca preserva uma parte significativa da estrutura vegetal vertical e da biodiversidade típica da Mata Atlântica, mantendo a conectividade ecológica e serviços ambientais essenciais.

A substituição desse modelo por sistemas agrícolas convencionais implica um risco evidente e significativo de fragmentação e perda de conectividade ecológica. A Bahia, conforme o Atlas da Mata Atlântica (SOS Mata Atlântica/INPE), possui aproximadamente 1.968.207 hectares de remanescentes florestais, o que equivale a 10,9% da cobertura brasileira, e registrou 4.717 hectares de desmatamento entre 2023 e 2024.

Iniciativas recentes do Ministério da Agricultura, por meio da CEPLAC, com apoio de fundos internacionais, preveem a revitalização de aproximadamente 50 mil hectares de lavouras e a transformação de até 1,6 milhão de hectares de paisagens produtivas. Essas ações incluem recomposição de áreas degradadas, enriquecimento florestal e fortalecimento da sustentabilidade.

Desafios e oportunidades no cenário global

O debate sobre desmatamento e sustentabilidade ultrapassa a escala regional. A União Europeia, por exemplo, aprovou o Regulamento (UE) 2023/1115, que estabelece requisitos para a comercialização de produtos associados ao risco de desmatamento, incluindo o cacau. A norma exige que as empresas comprovem que seus produtos não estão relacionados a desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020.

Para a lavoura cacaueira da Bahia, essa regulamentação impõe a necessidade de conformidade rigorosa, segurança fundiária e regularização ambiental plena. Contudo, o sistema “cabruca” se posiciona como uma vantagem concorrencial, pois já preserva uma cobertura arbórea significativa. O desafio, agora, é consolidar essa herança sob parâmetros modernos de governança ambiental, integrando regularização fundiária, conformidade com o Código Florestal, transparência e rastreabilidade.

Próximos passos para a lavoura cacaueira

A experiência do sul baiano, que associa tradição agrícola e conservação ambiental, é um caso singular. Para que essa compatibilidade seja eficaz no acesso a mercados mais qualificados e exigentes, é crucial que seja demonstrada, auditável e juridicamente segura. A governança adequada é essencial para que essa vantagem estrutural não se converta em risco reputacional e de mercado.