O sonho da casa própria tem se tornado mais distante para muitos brasileiros, incluindo os baianos. A elevação dos juros, o encarecimento do crédito e a alta nos preços dos imóveis são fatores que dificultam a aquisição, levando muitas famílias a permanecerem ou retornarem ao aluguel.
Em 2024, o número de brasileiros vivendo de aluguel atingiu 46,5 milhões, o equivalente a 21,9% da população, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE. Este é um recorde histórico para o país.
Os preços de venda de imóveis continuaram em alta nos primeiros meses de 2024, acumulando um aumento de 0,52%, conforme o índice FipeZap. Em algumas cidades, o valor do metro quadrado supera a média nacional, tornando o financiamento imobiliário ainda mais desafiador.
Impacto dos juros altos e valorização em Salvador
A taxa básica de juros elevada fez com que os financiamentos imobiliários chegassem a girar em torno de 12% ao ano. Isso aumenta significativamente o valor das parcelas e reduz o número de famílias aptas a assumir um contrato de longo prazo para a casa própria.
Em Salvador, a realidade não é diferente. A capital baiana registrou uma valorização expressiva nos preços dos imóveis nos últimos anos. O custo médio do metro quadrado alcançou cerca de R$ 8,2 mil em fevereiro, após um acúmulo de 14% em 12 meses. Há dois anos, esse valor girava em torno de R$ 5,8 mil.
Segundo Anderson Ferreira, diretor da A&F Pop Imobiliária, o custo dos insumos da construção civil aumentou e é repassado ao cliente final. Ele afirma que a cidade tem um déficit habitacional elevado, estimado em cerca de 100 mil unidades, e a procura ainda é muito grande.
A estudante de enfermagem Milena Fernandes, 27 anos, relatou que tentou financiar um imóvel, mas não conseguiu arcar com os custos. "As parcelas, as taxas de evolução da obra e o valor da entrada não cabem no orçamento de muitos soteropolitanos. No meu caso, somando tudo, dava mais de um salário mínimo", disse Milena, que acabou voltando para o aluguel.
Minha Casa, Minha Vida como alternativa
Diante desse cenário, as recentes mudanças no programa Minha Casa, Minha Vida surgem como uma tentativa de reequilibrar o mercado e ampliar o acesso à casa própria. A reformulação aprovada pelo Conselho Curador do FGTS ampliou os limites de renda e os tetos de financiamento, permitindo que mais famílias se enquadrem nas regras.
As novas faixas passaram a contemplar rendas mensais de até R$ 13 mil, na chamada faixa 4, voltada à classe média. Além disso, o valor máximo dos imóveis financiados foi elevado, chegando a R$ 600 mil nessa categoria. As demais faixas também tiveram ajustes, ampliando o alcance para famílias de menor renda.
De acordo com a Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc), as mudanças podem beneficiar cerca de 6,4 milhões de famílias em todo o país. Luiz França, da Abrainc, afirma que as novas regras ajudam a destravar a demanda por imóveis em um momento de crédito mais restrito, trazendo mais previsibilidade para o setor e incentivando novos investimentos.
Anderson Ferreira explica que o programa tem funcionado como um "amortecedor" diante das dificuldades impostas pelos juros elevados, com taxas que podem variar de 4% a 10% ao ano, significativamente menores que as praticadas por bancos privados. "Na faixa 3, houve redução de praticamente 2% na taxa de juros. Isso significa parcelas menores e maior capacidade de financiamento", pontua.
Em Salvador, a ampliação do programa já começa a impactar o setor. Segundo o especialista, a inclusão de famílias que antes estavam fora dos critérios deve trazer mais dinamismo ao mercado local, atendendo a um público que corresponde à maior parte dos lançamentos na cidade.

