O governo federal está com um olho no futuro dos Correios e outro nas contas da empresa. Para tentar colocar a estatal nos trilhos financeiros, há um estudo para mudar a velha lei postal, que hoje exige que os Correios estejam presentes em cada cantinho do Brasil.
A ideia é mandar um projeto de lei para o Congresso Nacional ainda este ano, já que a situação financeira é delicada. Mesmo com um empréstimo gordo de R$ 12 bilhões que a empresa conseguiu no fim do ano passado, e um plano de corte de gastos, parece que rever a obrigação de atender todos os municípios é algo que não tem como escapar.
Universalização: um peso bilionário nas contas
Manter o serviço em todas as cidades pesa demais no caixa. Estima-se que a universalização dos serviços custe cerca de R$ 6 bilhões por ano aos Correios, considerando valores de 2025. Desse total, R$ 1,9 bilhão já é coberto por um benefício fiscal, mas ainda sobram cerca de R$ 4 bilhões que precisam ser bancados. Técnicos que acompanham o tema acreditam que, com uma lei mais moderna, daria para diminuir essa conta e criar formas de cobrir o que falta.
O governo está pesquisando como outros países lidam com a universalização dos serviços postais. Uma fonte envolvida nas conversas revelou que a conclusão é clara: sem ajuda externa para financiar essa operação, a empresa dificilmente vai conseguir se manter sozinha. Entre as ideias na mesa, está um modelo parecido com o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust). Nele, empresas privadas do setor de telecomunicações contribuiriam financeiramente para ajudar a bancar o serviço em lugares menos rentáveis. Outra opção seria o próprio governo federal pagar os Correios diretamente pelo Orçamento, mas isso dependeria do aval do Congresso e esbarra na falta de dinheiro.
Crise financeira e busca por novas fontes
Os Correios vêm enfrentando uma crise financeira séria há algum tempo. Além do empréstimo de R$ 12 bilhões, a estatal precisa de mais R$ 8 bilhões para fechar as contas. O Tesouro Nacional está vendo se consegue esse dinheiro extra, seja com novos empréstimos ou colocando a União para aportar os recursos diretamente. A empresa também está buscando outras formas de economizar, como renegociar contratos com fornecedores e parcelar dívidas de impostos e precatórios.
Venda de imóveis para ajudar no caixa
Para dar um fôlego, os Correios também estão vendendo parte de seu patrimônio. Na semana passada, a empresa avançou na venda de imóveis que não estão sendo usados. Os primeiros leilões, que serão online e abertos a qualquer pessoa ou empresa, estão marcados para fevereiro, com 21 imóveis sendo ofertados inicialmente. A expectativa é arrecadar até R$ 1,5 bilhão com a venda de bens até o fim do ano.
Histórico de prejuízos e desafios recentes
Em 2025, a empresa registrou um déficit primário de mais de R$ 1 bilhão. O prejuízo contábil foi ainda maior, chegando a mais de R$ 6 bilhões até setembro do ano passado. Os investimentos na companhia foram baixos, com apenas R$ 269,1 milhões em 2025.
É bom lembrar que, no governo anterior, a empresa foi incluída no Programa Nacional de Desestatização (PND), o que praticamente paralisou seus investimentos. Já em 2023, no atual governo, os Correios foram retirados desse programa. Em 2024, o prejuízo foi de R$ 2,6 bilhões, bem acima dos R$ 633 milhões de 2023. Uma das razões para essa piora foi a queda de receita por causa do novo imposto sobre compras internacionais, o que ficou conhecido como a “taxa das blusinhas”.
Uma fonte de alto escalão do governo, em entrevista ao Valor Econômico, resumiu a situação:
A lei postal é da década de 1970. Não dava para imaginar que esse modelo se sustentaria indefinidamente.
A avaliação é que tentar manter a presença em todos os municípios com a estrutura atual torna quase impossível para os Correios sair do vermelho. Para quem acompanha o tema de perto, não existe uma “bala de prata”, ou seja, uma solução mágica e rápida para a crise. É um trabalho que vai exigir tempo e muita dedicação, como já aconteceu com outras empresas parecidas em outros países.

