Casos recentes no Distrito Federal e em cidades próximas estão acendendo um alerta e mostrando que a facção Bonde do Maluco (BDM), originária da Bahia, tem expandido suas operações para além dos seus territórios habituais. Pelo visto, a capital federal e as áreas do Entorno viraram pontos estratégicos para o grupo criminoso, servindo de apoio e articulação, especialmente no que diz respeito ao transporte de armas e à circulação de membros importantes da organização.
É bom deixar claro: não há registros de que o BDM esteja disputando territórios no DF, como acontece em outras regiões. No entanto, o que chama a atenção é que os acontecimentos são variados e envolvem pessoas de destaque dentro da facção, reforçando a ideia de que o alcance do grupo vai muito além da Bahia e de suas conhecidas conexões com São Paulo e Rio de Janeiro.
BDM: De Salvador para o cenário nacional
O BDM nasceu em 2015, dentro do Complexo Penitenciário da Mata Escura, em Salvador, na Bahia. Como muitas outras facções brasileiras, ele cresceu se estruturando com regras internas bem definidas, uma hierarquia forte e se expandindo a partir do sistema prisional. Em menos de dez anos, o BDM deixou de ser um grupo restrito à capital e ao interior baiano para se tornar uma das facções mais organizadas do país, com ligações até mesmo com o tráfico internacional de drogas.
Essa expansão rápida aconteceu porque o grupo soube fazer as parcerias certas, principalmente para conseguir drogas e armas. O aliado mais importante é o Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo. Essa aliança deu ao BDM acesso a rotas, logística e armamento. Mais recentemente, para tentar frear o avanço do Comando Vermelho (CV) na Bahia, a facção também se aproximou do Terceiro Comando Puro (TCP).
Distrito Federal: Corredor de Armas e Logística
É nesse cenário de expansão que o Distrito Federal ganha destaque como uma peça fundamental. As investigações da polícia têm mostrado que o BDM usou a capital federal como um canal para comprar e escoar armamentos. Uma operação revelou o nível de organização e a capacidade financeira impressionante da facção.
Em abril de 2025, por exemplo, a Operação Illusion conseguiu localizar sete pessoas envolvidas na compra de mais de 100 armas em Brasília. Esse arsenal, que incluía pistolas, revólveres e outras armas de alto poder de fogo, tinha um destino certo: o BDM na Bahia. As armas eram compradas por meio de intermediários e um esquema fraudulento que envolvia até uma loja especializada na capital.
A polícia contou que as armas eram enviadas por terra, em comboios. Os valores negociados já passavam de R$ 1 milhão, como revelaram áudios gravados durante a investigação. Uma parte desse armamento era usada diretamente nos confrontos contra o Comando Vermelho em áreas de disputa na Bahia.
Membros Estratégicos Fora da Bahia
Além das armas, a presença de integrantes do Bonde do Maluco fora da Bahia, inclusive criminosos com funções estratégicas dentro da facção, ficou evidente em casos registrados ao longo de 2025 e no início de 2026 no DF e no Entorno. Isso mostra que o grupo não está de passagem, mas utilizando a região como base de apoio.
No episódio mais recente, um integrante do BDM com um longo histórico de crimes graves morreu depois de um confronto com a Polícia Militar. A ação aconteceu em uma área de mata, depois de uma denúncia de tráfico de drogas e posse de armas. Segundo a PM, os suspeitos reagiram com tiros ao perceberem a aproximação das viaturas, começando o confronto. O homem baleado chegou a ser socorrido, mas não resistiu. Ele tinha passagens por homicídio e tráfico.
Outro caso importante foi em dezembro de 2025, no Entorno do Distrito Federal, quando a polícia prendeu um foragido da Justiça baiana. Ele foi identificado como membro do BDM e considerado de alta periculosidade. Dentro da facção, ele tinha a função de “disciplina”, que é um cargo de grande responsabilidade para aplicar as regras, punir quem as quebra e garantir que as ordens dos chefes sejam cumpridas. A prisão ocorreu durante uma abordagem policial, enquanto o suspeito estava se deslocando.
Fontes da polícia do DF explicaram ao Portal A TARDE que a presença desses membros em outras regiões indica que o BDM não vê o Distrito Federal apenas como uma rota eventual. Pelo contrário, a capital e seu entorno servem como uma base de apoio e reorganização, seja para fugir da polícia, seja para planejar novas ações criminosas, mostrando a complexidade e a abrangência da atuação da facção.

