Após mais de 26 anos de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia está perto de se concretizar, prometendo grandes mudanças para a economia brasileira. Um dos setores que mais sentirá o impacto é o automobilístico, com a expectativa de carros europeus mais acessíveis, mas também um alerta sobre a indústria e os empregos no Brasil.
O tratado, que une os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e 27 nações europeias, cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Juntos, esses blocos representam cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) superior a US$ 22 trilhões. O objetivo principal é eliminar ou reduzir gradualmente até 90% das tarifas de importação e exportação em uma década.
Carros europeus mais acessíveis, mas com prazos diferentes
Para o consumidor brasileiro, a notícia mais direta é a possível queda no preço dos veículos europeus. Hoje, a alíquota de importação desses carros no Brasil é de 35%. Com o acordo, essa taxa começará a ser reduzida de forma progressiva, até chegar à isenção total.
- Veículos a combustão: Imposto de 35% zerado em até 15 anos.
- Veículos eletrificados: Imposto de 35% zerado em até 18 anos.
- Veículos a hidrogênio: Imposto de 35% zerado em até 25 anos, com 6 anos de carência.
- Novas tecnologias: Imposto de 35% zerado em até 30 anos, com 6 anos de carência.
Essa desgravação das tarifas não se aplica apenas aos carros prontos. As autopeças importadas também terão seus impostos diminuídos, o que, segundo especialistas, pode ajudar as montadoras já instaladas no Brasil a baratear seus custos de produção e, consequentemente, o preço final dos automóveis.
Um desafio para a indústria nacional e os empregos
Se, por um lado, o consumidor pode se beneficiar com carros mais baratos, por outro, o acordo levanta sérias preocupações para a indústria automotiva brasileira. A redução das tarifas sobre veículos e componentes europeus vai aumentar a concorrência de forma significativa, especialmente para os veículos produzidos no Brasil com tecnologia considerada mais antiga.
É preciso considerar que elas são o segmento industrial que mais emprega e que invariavelmente, pressiona o governo federal por “eternos” subsídios sob a perspectiva de demissões. Basta observarmos a saída de montadoras do país e a incipiente instalação de plantas de montadoras de carros elétricos.
A afirmação é de Daniela Cardoso, professora de Economia Internacional. Ela explica que há uma grande expectativa de que essa maior concorrência afete negativamente as indústrias já consolidadas no Brasil, que são grandes geradoras de emprego.
Um estudo do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) já alertava, em 2023, para o risco de um aumento do déficit na balança comercial de veículos. A pesquisa aponta para uma tendência de crescimento das exportações de veículos elétricos da Europa para o Mercosul, impulsionada pelo avanço europeu nessa área e pela crescente demanda brasileira.
O papel do etanol e da China no futuro do mercado
Diante desse cenário de desafios, o Brasil busca equilibrar a balança com estratégias próprias. Uma delas é o foco na exportação de veículos híbridos movidos a etanol para a Europa, aproveitando a tecnologia desenvolvida no país.
Outra aposta importante é na atração de montadoras chinesas para o Brasil. A esperança é que novas fábricas se instalem por aqui nos próximos 15 anos, não só para aumentar a concorrência no mercado interno, mas também para absorver a mão de obra local que pode ser afetada por possíveis demissões nas indústrias já estabelecidas.
O acordo Mercosul-UE representa um passo gigante para o comércio internacional do Brasil, mas exige atenção e planejamento para garantir que os benefícios superem os desafios, especialmente no setor automotivo, que pode ver seus carros mais baratos à custa de uma reestruturação profunda.

