A cidade de Goiânia, em Goiás, relembrou neste mês de setembro a tragédia do brilho azul, um dos maiores acidentes radiológicos do mundo. O caso, que completa 36 anos, envolveu a contaminação por Césio-137 após o descarte inadequado de um aparelho de radioterapia.
A contaminação começou em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores de papel entraram em um prédio abandonado do antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Eles removeram uma peça de chumbo e aço de uma máquina de radioterapia e a levaram para casa em busca de metal para revenda.
Os primeiros sintomas, como tonturas e náuseas, apareceram em 15 de setembro. Um dos catadores apresentou uma queimadura grave na mão, mas o diagnóstico médico inicial não identificou a radiação, segundo relatos da época.
Descuido e fascínio pelo brilho azul
Em 18 de setembro, a peça foi vendida a Devair Ferreira, dono de um ferro-velho. Ao abrir a cápsula, ele encontrou um pó que emitia uma intensa luz azul no escuro. Encantado, Devair levou o material para dentro de casa, onde o "pó brilhante" virou atração para amigos, vizinhos e familiares.
Fragmentos da substância foram passados de mão em mão, colocados em bolsos e até usados como adorno. A tragédia do brilho azul se aprofundou quando, em 25 de setembro, Ivo Ferreira, irmão de Devair, levou um pouco do pó para sua casa. Sua filha, Leide das Neves, de 6 anos, manipulou o material enquanto lanchava, ingerindo a substância radioativa.
Em 26 de setembro, Maria Gabriela, esposa de Devair, percebeu que todos ao seu redor estavam adoecendo simultaneamente e começou a suspeitar do metal do ferro-velho. Dois dias depois, em um ato de coragem, ela levou a cápsula até a Vigilância Sanitária, que isolou o objeto.
Um físico chegou em 29 de setembro com um contador Geiger, que estourou a escala de medição, alertando o governo sobre a emergência nuclear em Goiânia. "A gente não sabia que o brilho era a morte. Parecia coisa de Deus, de tão bonito", relatou um dos contaminados durante a triagem no Estádio Olímpico.
Consequências e legado da tragédia
A operação de limpeza e contenção gerou números impressionantes para os técnicos da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O material recolhido está em um depósito fortificado em Abadia de Goiás, onde deve permanecer isolado por, no mínimo, 300 anos até que a radioatividade do Césio-137 caia a níveis seguros.
A cidade de Goiânia ainda luta para apagar o estigma do acidente e garantir assistência médica vitalícia aos sobreviventes da tragédia do brilho azul. O caso serve como um alerta global sobre os perigos do descarte inadequado de materiais radioativos e a importância da segurança nuclear.

