O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto cobrava relações sexuais da soldado Gisele Alves Santana em troca do pagamento de despesas domésticas. As provas foram apresentadas na denúncia do Ministério Público de São Paulo (MPSP), divulgada nesta quarta-feira (18).
As mensagens, que constam no documento, indicam um comportamento possessivo, controlador e autoritário do oficial. Ele reclamava da falta de "investimento" da vítima na relação e detalhava os valores das contas que pagava.
"Eu invisto todos os meses, 3 mil reais de aluguel, 2 mil reais de condomínio, 500 reais de água e luz, 500 reais de gás, fora as coisas que eu compro de mercado e todas as vezes que nós saímos eu pago tudo sozinho (...) e você investe quanto? Não tem dinheiro, beleza. Investe amor, carinho, atenção, dedicação, sexo.... mas nem isso você faz", escreveu o tenente-coronel em uma das mensagens, segundo o MPSP.
Em resposta, Gisele reiterou seu desejo de separação. "Por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final", afirmou ela em 2 de fevereiro, dias antes de sua morte.
Prisão e defesa do tenente-coronel
O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto foi preso pela Polícia Militar em sua casa em São José dos Campos, interior de São Paulo, na manhã desta quarta-feira (18). Ele é acusado de feminicídio, por motivo torpe e com recurso que dificultou a defesa da vítima, além de fraude processual por tentar simular um suicídio após o crime.
A defesa do tenente-coronel se manifestou por meio de nota, afirmando ter sido surpreendida pela decretação de sua prisão pela Justiça Militar e Comum. Os advogados questionaram a competência simultânea das duas esferas, considerando a decisão ilegal.
Segundo os advogados, o militar já sabia dos pedidos de prisão desde 17 de março, não tentou se ocultar e forneceu seu endereço às autoridades, sendo detido sem resistência. O escritório informou que acionou o Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra a ordem da Justiça Militar e avalia apresentar habeas corpus contra a decisão da Justiça comum.
A nota também criticou a divulgação de informações sobre a vida privada do tenente-coronel, alegando exposição indevida e violação de direitos. A defesa confia nas investigações e aguarda a elucidação completa do caso.
Detalhes da denúncia do Ministério Público
A denúncia do Ministério Público descreve o relacionamento do casal como marcado por violência, com comportamento possessivo, controlador e autoritário do oficial. Há relatos de agressões físicas, psicológicas e humilhações, além da exigência de relações sexuais em troca do pagamento de despesas da casa e tentativas de isolamento da vítima de familiares e amigos.
Mensagens extraídas do celular do denunciado, conforme o MP, reforçam esse cenário. Em uma delas, a vítima afirma que queria se separar e relata ter sido agredida dias antes do crime. Em outra, o oficial descreve um modelo de relacionamento baseado na submissão da mulher.
O crime ocorreu na manhã de 18 de fevereiro, por volta das 7h28. A acusação aponta que, durante uma discussão, o tenente-coronel teria segurado a vítima pela cabeça e efetuado um disparo de arma de fogo contra o lado direito do crânio. Em seguida, ele teria manipulado a cena para simular um suicídio, posicionando o corpo, colocando a arma na mão da vítima, escondendo vestígios e lavando as mãos para dificultar a perícia. O Ministério Público sustenta que houve demora no acionamento do socorro, cerca de meia hora após o disparo.
A acusação aponta que o feminicídio teria sido motivado pelo desejo da vítima de se divorciar. Dias antes da morte, Gisele chegou a pedir ajuda aos pais e afirmou que não suportava mais a relação. O MP também afirma que o tenente-coronel pode ter usado sua posição hierárquica para influenciar testemunhas e interferir na investigação.
Diante dos elementos reunidos, o MP pediu a prisão preventiva do oficial e o afastamento do cargo, alegando risco à ordem pública e à instrução criminal. A Justiça decretou a prisão preventiva do tenente-coronel, e o caso deve ser analisado pelo Tribunal do Júri. A defesa do oficial nega as acusações e sustenta que a policial tirou a própria vida.

