Política

Revolta dos Búzios: historiadores explicam por que movimento baiano foi esquecido

Pautas como igualdade social e abolição da escravidão, defendidas por negros e artesãos, assustaram as elites da época, segundo especialistas
Por Redação
Revolta dos Búzios: historiadores explicam por que movimento baiano foi esquecido
Compartilhe:

A Revolta dos Búzios, também conhecida como Conjuração Baiana de 1798, não alcançou a mesma projeção nacional que a Inconfidência Mineira, celebrada em 21 de abril. Historiadores apontam que o perfil dos participantes e as pautas radicais do movimento baiano são as principais razões para essa disparidade.

Enquanto a Inconfidência Mineira focava na independência e na questão dos impostos, a Conjuração Baiana defendia a igualdade social e racial, além da abolição da escravatura. Essas propostas eram consideradas mais ameaçadoras para a estrutura de poder da época, conforme explica o historiador Cleiton Mesquita.

Segundo Mesquita, a Conjuração Baiana foi, em muitos aspectos, mais radical que a Inconfidência Mineira. O movimento baiano tinha forte participação popular, composta por negros, mulatos, artesãos e soldados, o que o diferenciava do levante mineiro, protagonizado por homens brancos e letrados da elite econômica.

A Construção da Memória Histórica

A forma como os eventos históricos são lembrados depende de quem narra a história. A história oficial brasileira, escrita por elites, valorizou movimentos com os quais se identificava. A Inconfidência Mineira foi retratada como um levante “civilizado”, enquanto a Revolta dos Búzios foi reduzida a uma “revolta perigosa” ou desordem social.

Por décadas, os currículos escolares reforçaram essa disparidade. Tiradentes foi elevado a mártir nacional, enquanto a Revolta dos Búzios recebia apenas breves menções. Somente em anos recentes, com a reforma de currículos e a maior valorização da história social e racial, heróis baianos como João de Deus e Lucas Dantas começaram a ganhar reconhecimento.

A disparidade entre Minas e Bahia revela que a construção de heróis nacionais é um processo de seleção política. A história não é apenas o registro do que aconteceu, mas do que se escolheu lembrar, conforme define o professor Cleiton Mesquita. Movimentos como a Revolta dos Búzios mostram que há muitas outras narrativas que ficaram à margem, não por serem menos importantes, mas por incomodarem mais as elites que detinham o poder de narrar.