A política brasileira, desde que o país voltou à democracia, tem visto a divisão entre diferentes grupos políticos e ideológicos ficar cada vez mais forte. Essa polarização intensa, com visões de mundo que muitas vezes se chocam, define boa parte do nosso cenário atual.
Momentos importantes ajudaram a construir essa realidade. Podemos citar o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a eleição de Jair Bolsonaro e o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência, depois que suas condenações foram anuladas.
A eleição de 2022, que colocou Lula e Bolsonaro frente a frente, foi um ponto alto dessa polarização que ainda vivemos. Nela, vimos grande parte do eleitorado se dividir claramente entre apoiadores de Lula e Bolsonaro, ou entre quem não queria um nem outro.
Mesmo com Jair Bolsonaro inelegível e preso, a tendência é que essa forte divisão continue a influenciar as eleições de outubro deste ano. Lula deve concorrer à reeleição, e um novo nome da direita, seguindo os passos de Bolsonaro, vai disputar os votos.
Eleitores cansados, mas ainda polarizados
Para entender melhor esse cenário, o Portal A TARDE conversou com o cientista político e professor de Ciências Sociais da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Márcio André dos Santos. Ele analisou como a polarização pode se manifestar nas próximas eleições.
Márcio André explicou que, por mais que a gente tenha a sensação de que os eleitores brasileiros estão cansados da briga entre esquerda e direita, eles na verdade continuam bastante divididos. E, no momento de escolher seus candidatos à Presidência, tendem a reafirmar aquilo em que já acreditam.
O eleitor brasileiro se cansou da polarização, sobretudo da ambiência que ela produz. No entanto, esses eleitores continuam polarizados. Há o fenômeno das bolhas. A própria lógica das redes sociais faz com que a gente fique girando em torno de bolhas da esquerda ou da direita.
Márcio André, cientista político
Essa divisão, segundo o especialista, não para de se fortalecer por causa da intensidade dos debates nas redes sociais. Lá, as chamadas “bolhas digitais” acabam isolando as pessoas em grupos que pensam de maneira parecida. Isso faz com que as crenças fiquem ainda mais fortes e diminui o contato com opiniões diferentes, o que pode levar à radicalização.
Outro ponto que ajuda a manter a polarização, de acordo com Márcio André, é o que ele chama de “capital político individual”. Isso significa que cada pessoa tem suas próprias experiências e pontos de vista, que influenciam como ela entende cada assunto.
Lulismo e Bolsonarismo ainda definem as eleições?
Na visão de Márcio André, a polarização entre os eleitores que apoiam Lula e os que seguem Bolsonaro continua sendo muito importante para as eleições. A boa notícia para a esquerda, porém, é que o bolsonarismo parece estar perdendo força.
O cientista político aponta que esse enfraquecimento veio por causa de tudo o que aconteceu após a tentativa de golpe de Estado, que tentou impedir Lula de assumir a presidência em 2022. Além disso, as investigações e as condenações que levaram à prisão de Jair Bolsonaro e de seus aliados também contribuíram para essa perda de influência.
A polarização política permanece, mas perdeu força nos últimos anos. Isso ocorreu porque o bolsonarismo se enfraqueceu em razão de todo o processo relacionado à tentativa de golpe de Estado e ao julgamento da trama golpista pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal. Houve, portanto, um enfraquecimento geral do bolsonarismo.
Márcio André, cientista político
Com esse cenário, Márcio André conclui que o enfraquecimento do bolsonarismo pode acabar favorecendo a esquerda nas próximas disputas eleitorais. A polarização continua, mas com um peso diferente para cada lado.

