Um episódio que mistura fé, política e Carnaval gerou grande repercussão. O pastor Elias Cardoso, da Assembleia de Deus de Perus, em São Paulo, no estado de São Paulo, usou o púlpito durante um culto na última segunda-feira, dia 16, para desejar "câncer na garganta" a integrantes da escola de samba Acadêmicos de Niterói, de Niterói, no Rio de Janeiro. A razão da ira do religioso foi a homenagem que a escola fez ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e uma ala que, segundo ele, 'tripudiou' sobre a fé evangélica no desfile de Carnaval.
A polêmica começou com a apresentação da escola de samba no domingo, dia 15, na Sapucaí. A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida o enredo "Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil", uma clara homenagem ao atual presidente. No entanto, uma das alas, batizada de "Neoconservadores em Conserva", foi a principal causa da irritação do pastor.
Nesse setor específico do desfile, a escola de samba representou grupos que seriam opositores de Lula, incluindo evangélicos, de uma forma bastante peculiar: dentro de latas de conserva. A imagem, que ironizava a posição desses grupos, foi interpretada pelo pastor Elias Cardoso como um ataque direto à fé cristã.
"Vão sofrer consequências divinas", afirma pastor
Durante o culto, o pastor deixou claro seu descontentamento e suas expectativas de uma resposta divina. "Não vamos responder às provocações que fizeram nas escolas de samba. (…) Tripudiaram em cima da nossa fé, não vamos responder. Vamos orar. A hora que esses homens estiverem com câncer na garganta, eles vão lembrar com quem mexeram", declarou Elias Cardoso, em um tom de ameaça.
"Melhor representação não é no STF, não é na Justiça, é lá em cima, direto do trono. Deus vai responder à provocação que fizeram contra a Igreja. (…) A Igreja do Senhor está coberta, amparada pelo Juiz do Supremo Tribunal Celestial", disse o pastor, reforçando a ideia de que a justiça viria de Deus, e não de instituições terrenas como o Supremo Tribunal Federal (STF).
A fala do pastor indica uma crença profunda de que a afronta à fé não pode ser resolvida por meios legais ou humanos, mas sim por uma intervenção divina, que, segundo ele, trará doenças como punição para aqueles que, em sua visão, desrespeitaram a igreja e seus fiéis.
Enredo sobre Lula enfrentou disputas na Justiça
Antes mesmo de pisar na Sapucaí, o enredo da Acadêmicos de Niterói já era alvo de controvérsias. A homenagem a Lula gerou ao menos dez ações na Justiça e no Tribunal de Contas da União (TCU). Partidos e parlamentares da oposição argumentaram que a apresentação da escola de samba configuraria propaganda eleitoral antecipada, o que é proibido pela legislação.
No entanto, apesar das contestações, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se manifestou e autorizou o desfile, permitindo que a escola de Niterói levasse sua homenagem ao presidente para a avenida sem impedimentos legais. A decisão do TSE garantiu a liberdade de expressão artística da escola, mas não evitou a forte reação de setores religiosos, como a expressa pelo pastor Elias Cardoso.
O episódio destaca a tensão crescente entre diferentes esferas da sociedade — política, religião e cultura — e como o Carnaval, um dos maiores palcos de manifestação cultural do Brasil, pode se tornar um epicentro para debates intensos e, por vezes, chocantes.

