A segunda-feira de Carnaval em Salvador, na Bahia, ganhou um colorido especial com o tradicional desfile da Mudança do Garcia. Longe dos circuitos mais badalados como o Dodô (Barra-Ondina) e o Osmar (Campo Grande), o bairro do Garcia se tornou palco de uma manifestação cultural que celebra a história, o samba e a resistência popular.
O bloco, que arrasta uma multidão de foliões, estava previsto para começar às 15h30, partindo do final de linha do Garcia e seguindo em direção ao Circuito Osmar. No entanto, a energia começou bem antes, com moradores e visitantes se reunindo na região desde as primeiras horas da manhã para sentir a vibração única deste evento histórico.
Uma história que nasce da rua: Do Arranca-Tocos à Mudança do Garcia
A história da Mudança do Garcia é tão rica quanto o Carnaval de Salvador. O bloco nasceu lá pelos anos 1920, no próprio bairro do Garcia, como um movimento popular e "anti-sistema". Naquela época, a região era mais rural, cheia de fazendas, e os moradores tinham que tirar os tocos de madeira que sobravam das árvores para abrir caminho. Por isso, o primeiro nome do bloco foi "Arranca-Tocos".
Com o passar dos anos, o movimento ganhou um novo apelido: "Faxina do Garcia". O nome pegou porque, ao passar, o bloco "levava todo mundo" com ele, uma verdadeira varredura de alegria e gente. Além disso, as ruas de barro levantavam muita poeira, e o bairro precisava mesmo de uma "faxina" depois da passagem do bloco.
Foi só por volta da década de 1950 que, com as ruas do Garcia já calçadas, o evento ganhou o nome que conhecemos hoje: Mudança do Garcia. Conta-se que a sugestão veio do então vereador Herbert de Castro.
Circuito Riachão: Homenagem ao samba baiano
Desde 2015, o trajeto percorrido pela Mudança do Garcia, entre o bairro e o Campo Grande, foi carinhosamente batizado de Circuito Riachão. Essa homenagem é para Clementino Rodrigues, o lendário sambista baiano conhecido como Riachão, que nasceu no Garcia. Riachão construiu uma carreira brilhante e se tornou um dos maiores nomes do samba no Brasil, nos deixando em março de 2020, mas sua arte e memória continuam vivas no Carnaval.
Resistência e identidade: A voz do bairro
Desde sua criação, a Mudança do Garcia é reconhecida por sua força na resistência popular e por sua veia política, mantendo vivo o espírito dos carnavais mais antigos. Hoje, ela segue como uma das manifestações mais autênticas e carregadas de significado político da cultura baiana.
Lucas Cerqueira, de 21 anos, morador do bairro, compartilha o orgulho de fazer parte dessa tradição:
“Eu me sinto muito orgulhoso de morar aqui no Garcia. Eu moro aqui há 11 anos, a mudança me fez entender um pouco da história do próprio bairro, é um bairro que tem muita ligação com o samba.”
Ele reforça a importância cultural do evento para Salvador e para o próprio bairro:
“Esse ano faz 110 anos que o samba foi criado. E é uma coisa mais local, mas que é muito tradicional, muito respeitada. Então, acho que até para a própria identidade do bairro, eu acho muito importante. E eu me sinto muito feliz em fazer parte disso.”
A Mudança do Garcia, assim, não é apenas um desfile; é um pedaço da alma de Salvador, um grito de alegria e um lembrete vivo da história e da identidade de um povo que faz do Carnaval sua maior celebração de vida e cultura.

