Uma trend que viralizou nas últimas semanas nas redes sociais reacendeu o debate sobre o machismo camuflado e a violência contra mulheres no ambiente digital. Em vídeos que circulam principalmente no TikTok e no Instagram, homens simulam reações agressivas caso recebam um “não” em pedidos de namoro ou casamento.
As encenações, muitas vezes apresentadas em tom de humor, mostram socos, chutes ou ataques simulados contra objetos que representam mulheres. A repercussão levou a Polícia Federal (PF) a investigar o caso, após denúncia da Advocacia-Geral da União (AGU) por possível incitação à violência.
Segundo especialistas em comportamento digital, o episódio evidencia o fenômeno do machismo camuflado nas redes sociais. Trata-se de manifestações de sexismo disfarçadas de piadas ou memes, que reforçam estereótipos de gênero e naturalizam atitudes agressivas.
O Impacto do Machismo Camuflado e a Educação Digital
O machismo camuflado costuma aparecer em conteúdos que fazem parte da linguagem cotidiana da internet, como comentários, vídeos curtos e memes. Esses materiais podem, muitas vezes sem intenção explícita, ridicularizar comportamentos femininos ou transformar situações de rejeição em motivo de exposição pública.
Para especialistas, a circulação massiva desse tipo de conteúdo contribui para reforçar percepções desiguais sobre o papel das mulheres na sociedade. Esse cenário dialoga com o crescimento das denúncias de violência digital no país, conforme dados da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos da SaferNet, que indicam aumento nas notificações relacionadas à misoginia online.
Diante desse contexto, especialistas em educação e comportamento defendem que a discussão sobre respeito e convivência no ambiente digital precisa começar cada vez mais cedo. Adolescentes e jovens, que são grandes produtores de tendências online, necessitam de uma leitura crítica sobre memes, vídeos e discursos que circulam na internet.
Em Salvador, iniciativas pedagógicas já trazem esse debate para as escolas. No Colégio Marista Salvador, 579 estudantes participaram da palestra “É meme ou é violência? Onde termina a brincadeira e começa o ataque?”. A psicóloga Sarah Mabell Ramos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), conduziu a conversa, explicando como muitos conteúdos reproduzem formas de machismo disfarçadas de humor.
A especialista destacou que memes e tendências virais podem ridicularizar comportamentos femininos, questionar a autonomia das mulheres ou tratar a rejeição como motivo de agressividade. Segundo Sarah, esses conteúdos, embora pareçam inofensivos, ajudam a naturalizar discursos de desvalorização e desrespeito, inseridos em um contexto mais amplo de machismo estrutural.
A discussão com os estudantes abordou ainda como ataques virtuais frequentemente reproduzem desigualdades sociais, com mulheres negras sendo alvos preferenciais. A relativização do “não” da mulher nas redes sociais, que pode naturalizar comportamentos de pressão e controle, também foi um ponto central da palestra. Promover essa reflexão é fundamental para desenvolver uma leitura crítica sobre os conteúdos e seus impactos.
O estudante Bernardo Chagas Brito, do 3º ano do ensino médio, afirmou que a palestra ampliou seu olhar sobre situações frequentes nas redes sociais. Ele ressaltou a existência de um machismo camuflado em diversas publicações, evidenciando pensamentos enraizados na sociedade.

