A obra de Chico Liberato, um dos grandes nomes da arte moderna na Bahia, está entrando em uma nova e importante fase. A família do artista está à frente de dois projetos significativos para preservar e difundir seu vasto legado: um site recheado de conteúdos e um espaço cultural que ganhará forma na casa onde ele viveu e criou por quase 50 anos, no bairro do Trobogy, em Salvador, na Bahia.
Essa emocionante jornada é conduzida pelos filhos de Chico, Cândida e João Liberato, e pela sua viúva, a também artista Alba Liberato. Cada um tem uma função especial, mas todos trabalham juntos por um objetivo comum. Cândida se dedica à coordenação do site e à difusão dos materiais, enquanto João cuidou da digitalização e organização técnica de todo o acervo. Já Alba mantém a conexão diária com a obra, cuidando da casa onde arte e natureza sempre estiveram lado a lado.
Casa no Trobogy se prepara para virar centro cultural
No coração desse esforço está a casa que Chico Liberato escolheu para viver desde 1976. Uma chácara verdejante no Trobogy, um verdadeiro refúgio de silêncio e arte em meio à movimentada expansão urbana de Salvador. Para Alba Liberato, transformar esse lugar em um centro cultural é como estender a própria história do casal. “O projeto traz o espírito de proporcionar à população baiana e visitantes a oportunidade de vivenciar o lugar onde nasceu essa obra, casa onde a natureza se enlaça com a arte”, conta Alba.
Foi nesse ambiente inspirador que Chico criou uma parte significativa de suas obras e realizou experimentos pioneiros no cinema de animação. Alba se lembra com carinho:
Aqui produzimos e criamos nossos cinco filhos enquanto Chico atendia ao seu entusiasmo contagioso. Ele criava, pintava, esculpia, instalava equipamentos de cinema feitos de sucata por ele mesmo para desenhar à mão o filme Boi Aruá.O longa “Boi Aruá”, lançado nos anos 1980, se tornou um marco da animação brasileira, ajudando a quebrar a dependência de estilos estrangeiros.
Hoje, a família descreve a casa como um verdadeiro museu a céu aberto, com obras, objetos pessoais e vestígios do processo criativo espalhados por todos os cantos. No entanto, transformar o local em um centro cultural acessível ao público exige muito esforço, recursos e tempo. Cândida reconhece que é um grande desafio:
Para você botar esse centro para cima é um sacerdócio, tem que dormir e acordar pensando nisso.Ela também faz um apelo para que o poder público olhe com mais atenção para esse importante espaço cultural.
Um vasto acervo digital disponível online
A ideia do site surgiu de forma natural após a produção do documentário “A Vida é da Cor que Pintamos”, entre 2019 e 2021. Para o filme, foi preciso fazer um levantamento enorme de documentos, imagens e registros da vida do artista. No fim do processo, a quantidade de material era tão grande que não podia ficar guardada. “Daí surgiu a ideia de a gente fazer um site para colocar todo aquele material disponível para o público”, explica Cândida.
Uma oportunidade surgiu através de um edital focado na preservação da memória digital. Mesmo com recursos limitados, a equipe abraçou a iniciativa com garra. “Estávamos com uma turma superaguerrida, que viu o potencial, viu o material que a gente tinha na mão e topou essa empreitada”, diz a filha do artista. Hoje, o site é um portal completo que reúne a trajetória de Chico Liberato, documentos, imagens, textos e dois tours virtuais incríveis: um pela casa onde ele morou e produziu, e outro por uma exposição que aconteceu no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM) durante a pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2022. A empresa Elevenweb foi a responsável pela criação visual, implementação e manutenção técnica do portal.
O site também conta com uma linha do tempo super detalhada, montada a partir da digitalização de mais de três mil documentos. “Você consegue ver tudo que aconteceu na vida de Chico Liberato ano a ano, do ponto de vista pessoal e profissional”, detalha Cândida.
Preservando a memória de um Brasil que esquece
Enquanto Cândida se dedicava à difusão pública, João assumiu uma etapa crucial: a digitalização e o arquivamento técnico de um acervo ainda maior. “É um arquivo de uma vida”, afirma João. E não são apenas as obras finalizadas, mas todo o processo criativo: cartas, esboços, projetos, roteiros, fotografias, documentos de gestão cultural e registros pessoais. “O processo também é muito importante de ser divulgado”, destaca.
Esse material valioso revela não só o desenhista, pintor, escultor, gravador, cineasta e designer gráfico, mas também o gestor cultural exemplar que Chico Liberato foi. Ele esteve à frente do MAM por 12 anos e teve um papel fundamental na democratização do acesso à arte no estado, lembra João, que faz questão de ressaltar que foi Chico quem criou as oficinas de formação que continuam funcionando no espaço até hoje.
Para João, preservar esse conjunto é também uma forma de lutar contra um problema histórico do Brasil. “A gente vive num país em que a memória não é muito valorizada”, lamenta João. “Rapidamente se esquece das contribuições que foram dadas por um artista”.
Com esses novos projetos, a família de Chico Liberato não apenas preserva o passado, mas projeta seu legado para o futuro, convidando a todos para um encontro permanente com sua arte. A conexão é quase imediata, especialmente com jovens e adolescentes. “É incrível a aderência, a conexão que os jovens têm”, afirma Cândida. “Eles se veem na obra de Chico, veem coisas que remetem à infância e à ancestralidade, é inspirador”.

