Um mergulho fascinante na literatura clássica e contemporânea chega aos palcos de Salvador, na Bahia, com a estreia do espetáculo que une a antiga “Odisseia”, de Homero, e o poema “Paisagem com Argonautas”, de Heiner Müller. A montagem, que tem dramaturgia e direção de Marcio Meirelles, convida o público a uma reflexão profunda sobre viagens, destruição e a busca pelo retorno, em um diálogo potente entre séculos de história.
As sessões começam nesta quinta-feira, 7 de março, e seguem até o dia 22 do mesmo mês, no Espaço Cultural Barroquinha. O público poderá conferir as apresentações às sextas-feiras (19h), sábados (16h e 19h) e domingos (16h). Para garantir que todos possam desfrutar da experiência, o espetáculo oferece recursos de acessibilidade, como tradução em Libras e audiodescrição.
Uma Jornada Criativa no Palco
Marcio Meirelles, diretor da peça, explica que a ideia central surgiu de uma pergunta instigante: como abordar uma história milenar, como a “Odisseia”, nos dias de hoje? A resposta foi criar um diálogo entre a epopeia de Homero e a obra de Müller, que reflete sobre as ruínas do século XX e as marcas deixadas pela Segunda Guerra Mundial.
“Eu sentia dificuldade de tornar isso mais contundente, mais contemporâneo, mais conectado com tudo o que está acontecendo agora”, revela Meirelles, sobre a evolução do projeto que inicialmente pensava em uma “tradução” integral da obra de Homero.
A “Odisseia” narra a longa e perigosa jornada de Odisseu para voltar para casa após a Guerra de Troia, enfrentando monstros e desafios. Meirelles aponta que o poema mostra uma sequência de destruições que nunca realmente termina, questionando a ideia de um retorno pacífico.
Uma das escolhas mais impactantes da montagem foi retirar a interferência divina da narrativa. No espetáculo, os destinos e obstáculos de Odisseu não são mais controlados por deuses, mas sim por decisões humanas e as consequências de nossas ações. “A primeira coisa que fiz foi tirar os deuses da narrativa”, afirma o diretor, sugerindo que fenômenos como tempestades e mares revoltos são respostas ao que a humanidade faz. Essa abordagem dá um novo protagonismo a conflitos políticos e escolhas individuais, como a resistência da rainha Penélope, que ganha maior destaque na encenação.
“A gente precisa pensar para onde está indo e para onde gostaria de ir. Como recompor a humanidade, a harmonia, num mundo de tanto ódio e tantas mentiras?”, provoca Meirelles, conectando a história antiga com os desafios do presente.
Talentos de Salvador no Palco
O elenco do espetáculo é um fruto de um ciclo de formação intenso, de um ano, promovido pela Universidade LIVRE do Teatro Vila Velha. Jovens artistas de diversas comunidades de Salvador foram selecionados através de oito oficinas realizadas em bairros diferentes da cidade, construindo um grupo colaborativo e diverso. O projeto conta com o apoio da Fundação Branco do Brasil.
Luana Dias, conhecida artisticamente como Pandora, uma atriz de 25 anos moradora do bairro de Massaranduba, na Cidade Baixa, compartilha sua experiência. Para ela, a formação não só ampliou sua visão sobre a atuação, mas também sobre o funcionamento completo do teatro.
“A LIVRE traz uma formação completa. A gente sai da bolha da atuação e passa a entender também a parte técnica e os outros componentes que formam o teatro”, conta Pandora, destacando ainda o aprendizado no convívio com colegas de diferentes trajetórias. “Fazer parte dessa montagem que fala sobre travessia também é falar das travessias que faço diariamente para conseguir ser artista”.
Sons que Contam Histórias
A trilha sonora, assinada pelo músico Ramon Gonçalves, é um capítulo à parte. Ele criou uma atmosfera sonora que mistura inspirações cinematográficas com experimentações eletrônicas. Gonçalves descreve a composição como uma “orquestração épica artificial”, com camadas de sons eletrônicos, paisagens sonoras e referências marítimas, além de insinuar elementos bélicos.
Para enriquecer a experiência, instrumentos como berimbaus, atabaques, alfaia e guitarra são tocados ao vivo pelo próprio elenco, criando um equilíbrio entre o eletrônico e o físico.
Meirelles finaliza com uma expectativa: “Espero que o público se emocione e reflita sobre o que essa história fala sobre nós hoje”, convidando a todos para essa travessia teatral.
Serviço
- O quê: Espetáculo ODISSEIA + Paisagem com Argonautas
- Quando: De 7 a 22 de março
- Horários: Sextas (19h), sábados (16h e 19h) e domingos (16h)
- Onde: Espaço Cultural Barroquinha
- Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
- Vendas: Plataforma Sympla ou na bilheteria do local

