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Gregório Duvivier em Salvador celebra língua e defende-a 'impura'

Gregório Duvivier traz 'O Céu da Língua' a Salvador e reflete sobre a paixão pela língua portuguesa, defendendo sua 'impureza' e o poder do teatro.
Por Redação
Gregório Duvivier em Salvador celebra língua e defende-a 'impura'

Gregório Duvivier estreia espetáculo inédito em Salvador -

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O ator, escritor e humorista Gregório Duvivier, conhecido por sua mente afiada e atuação versátil, desembarca em Salvador, na Bahia, com seu monólogo inédito, "O Céu da Língua". O espetáculo, que promete ser uma verdadeira ode à palavra, está em cartaz no Teatro Sesc Casa do Comércio até o próximo domingo, 18 de janeiro.

Em uma conversa exclusiva, Gregório compartilhou sua visão sobre o português e o mundo. Longe de ser um purista, ele revela uma paixão pela língua "contaminada e impura", um contraponto ao personagem Policarpo Quaresma. "Eu gosto da língua contaminada por todas as outras línguas, eu gosto dela impura", explica, defendendo uma visão mais fluida e aberta da linguagem.

Um tesouro chamado Língua Portuguesa

"O Céu da Língua" nasce do desejo de Gregório de colaborar com a amiga e atriz paulista Luciana Paes, que divide com ele não só a autoria do texto, mas também a direção do espetáculo. Juntos, eles criaram uma montagem que convida o público a participar de uma "festa em torno da língua", a ponto de se "descobrir dono de um tesouro, que é a língua portuguesa".

A peça é uma celebração da capacidade humana de se expressar, de como a fala nos molda. Para acompanhar Gregório no palco, o público contará com a direção musical e execução da trilha sonora do instrumentista Pedro Aune, que usa seu contrabaixo para embalar as palavras. A irmã do comediante, Theodora Duvivier, é a responsável pela manipulação das projeções que enriquecem a cena.

Poesia e Política: as paixões de Duvivier

Gregório não se esquiva de temas complexos, inclusive a poesia. Ele admite que "muita gente tem medo" dela, por vezes sendo "chata ou pretensiosa". Contudo, ressalta seu "poder" de subverter sentidos e "acordar as palavras". Em seu texto, ecoam vozes de grandes nomes da literatura como Camões, Florbela Espanca, João Cabral de Melo Neto, Eugênio de Andrade, Caetano Veloso, Castro Alves, Machado de Assis, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes.

Artista de posicionamentos firmes, Gregório se define como socialista e um "homem de esquerda que tenta estar ao lado do povo". Ele afirma que a política não é uma escolha e que jamais pensa se suas convicções "vão ser boas ou ruins pra minha carreira". Para ele, o que importa é a "coerência" e entregar um trabalho de qualidade ao público, sem fazer cálculos sobre o impacto profissional.

Bahia no Coração do Artista

Fã declarado da Bahia, Gregório Duvivier expressa um carinho especial pelo público baiano, que ele considera "muito caloroso" e que tem "a poesia no sangue". Ele já se apresentou na capital baiana com espetáculos como "Sísifo" e "Portátil", e considera a Concha Acústica do Teatro Castro Alves uma "catedral da cultura brasileira", descrevendo a experiência de tocar lá como "talvez a maior emoção da vida".

"Salvador é uma cidade infinita. Riquíssima. Eu me sinto um estrangeiro em Salvador... mas um estrangeiro fascinado com a quantidade de cultura que essa cidade produziu e segue produzindo", conta o artista, demonstrando sua profunda conexão com a capital baiana. Ele ainda destaca a tradição poética da Bahia, berço de grandes poetas populares.

O Teatro resiste e celebra a humanidade

Em um mundo cada vez mais digital, Gregório reflete sobre o sucesso do teatro. Ele acredita que a crescente procura pelas salas escuras, especialmente após a pandemia, se deve ao fato de que "o teatro é a celebração da presença, da aglomeração".

"A humanidade e, sobretudo, a brasilidade se celebra aglomerando, e o teatro possibilita essa lembrança do que nos faz humanos, que é sentar em volta de uma fogueira e contar histórias", analisa. Para ele, o teatro, a mais antiga das artes, é também a mais duradoura, pois "não precisa de tecnologia nenhuma, basta alguém olhando. E alguém se apresentando, já vira teatro".

Questionado sobre onde mora o "real Gregório" em meio a tantas facetas – ator, escritor, roteirista, humorista –, ele responde que somos a soma de tudo que fazemos. Se tivesse que escolher um papel mais próximo da realidade, seria o "palhaço", que "contempla tudo, todo o resto".

Olhando para o futuro, Gregório espera estar "bem velho" daqui a 40 anos, mas ainda no teatro, seja no palco, nos bastidores ou na plateia. Seu desejo final é que o Brasil, um país que faz a festa mais bonita do mundo (o Carnaval), "esteja à altura da sua festa", com governantes que compartilhem o mesmo compromisso com o povo que os artistas já demonstram.