A Rainha do Axé, Daniela Mercury, surpreendeu o público do Carnaval de Salvador, na Bahia, ao comandar um desfile inédito da 'Pipoca do Crocodilo'. O evento aconteceu na noite desta segunda-feira, a partir das 19h, no tradicional Circuito Barra-Ondina. Esta edição especial faz parte das comemorações pelos 30 anos do percurso que ajudou a transformar o Carnaval da capital baiana no maior do país.
Em um gesto cheio de significado e com um forte recado político, a artista decidiu baixar as cordas do tradicional Bloco Crocodilo. Essa iniciativa transformou o desfile em uma verdadeira 'pipoca', aberta para todo mundo aproveitar de perto, ampliando o acesso e celebrando a democratização do Carnaval de rua, uma marca registrada da festa baiana. É uma maneira de dizer que a festa é para todos, sem barreiras, reforçando a inclusão e a liberdade de celebrar.
Um manifesto de bruxas sobre rodas
Com o tema 'As Bruxas Somos Nós', Daniela Mercury apresentou um cortejo-manifesto que uniu música, pensamento e performance em uma experiência coletiva e poderosa. O objetivo foi claro: afirmar o feminino e valorizar a história das mulheres, trazendo à tona discussões importantes em meio à alegria do Carnaval.
Durante a apresentação, a cantora utilizou vassouras em cena, mas de uma forma completamente ressignificada. Longe de qualquer conotação negativa, a vassoura se tornou um símbolo de sabedoria, autonomia e insubmissão. A performance de Daniela dialoga com a história de muitas mulheres que foram, ao longo do tempo, perseguidas justamente por sua liberdade intelectual e potência criativa, ou seja, por serem 'bruxas' em um sentido positivo e revolucionário.
A mensagem não parou por aí. Ao longo do percurso, a cantora incorporou frases de grandes intelectuais femininas, transformando o trio elétrico em um verdadeiro palco para o pensamento. O desfile também fez uma referência à metáfora de Caliban, personagem de William Shakespeare, para provocar uma reflexão sobre os processos históricos de opressão e resistência que marcaram a trajetória de grupos marginalizados.
Pensadoras como Lélia Gonzalez e Angela Davis apareceram como referências centrais, guiando a construção do discurso de Daniela Mercury. Além disso, livros atravessaram a avenida, servindo como poderosos símbolos de conhecimento libertador e de que a cultura e a educação são ferramentas essenciais para a transformação social.
Essa apresentação reforça a vocação de Daniela Mercury em transformar o trio elétrico em um espaço artístico ampliado. O 'triatro' — uma espécie de teatro sobre rodas idealizado pela própria cantora — ganhou novos contornos performáticos, integrando de forma única artes cênicas, discurso engajado e a música que é a alma do Carnaval. Foi um espetáculo que fez o público dançar, pensar e celebrar a força feminina.

