A quinta-feira de Carnaval em Salvador, na Bahia, costuma ser um momento de trégua política, onde adversários guardam as diferenças para celebrar a cultura. Mas em 2026, a história será diferente. A abertura da folia, marcada para esta quinta-feira, dia 12, a partir das 18h, no Campo Grande, será um palco com uma voltagem extra de política, prometendo ser o primeiro grande termômetro para as eleições de outubro.
Tradicionalmente, a festa começa com a entrega simbólica das chaves da cidade ao Rei Momo. Seguindo o protocolo de 'paz institucional' que busca garantir a segurança e o sucesso do evento, o prefeito Bruno Reis (União Brasil) e o governador Jerônimo Rodrigues (PT) devem dividir o palco para esse ato. Contudo, os sorrisos protocolares não vão conseguir esconder a tensão que permeia o ar.
Folias e Candidaturas: O Palco da Política na Avenida
O Carnaval de Salvador, conhecido como a maior festa de rua do mundo, acontece em um período crucial de movimentações para as eleições de 2026. Ele se transforma, assim, no 'pontapé inicial' simbólico de uma das disputas eleitorais mais acirradas das últimas décadas na Bahia. A popularidade dos políticos é testada no ‘gogó’ do folião, e cada vaia ou aplauso pode ser lido como um sinal do que virá nas urnas.
Este ano, o tema da festa celebra os 110 anos do samba, com uma abertura que destaca artistas como Nelson Rufino e Mariene de Castro. Mesmo sendo um ato institucional, a presença de Bruno Reis e Jerônimo Rodrigues no mesmo espaço vira um medidor de forças, onde cada grupo tenta mostrar sua influência.
ACM Neto: O Desafiante na Avenida
Um dos pontos que tiram o caráter puramente administrativo do evento é a presença confirmada do ex-prefeito e pré-candidato ao Governo do Estado, ACM Neto (União Brasil). Ele é o líder da oposição e deve usar o Carnaval para reforçar sua ligação histórica com a capital baiana. Diferente dos gestores em exercício, que têm agendas oficiais, Neto deve transitar pela festa como um candidato que testa sua força eleitoral.
ACM Neto e Bruno Reis trabalham com uma agenda conjunta para fortalecer o grupo político União Brasil, visando o cenário de 2026. A oposição, através de figuras como Éden Valadares, secretário de Comunicação Nacional do PT, critica a estratégia de Neto, que tem viajado pelo interior e capital para debater política e manter uma postura ativa.
Enquanto o grupo governista (PT) já tem sua chapa definida com Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner e Rui Costa, a dupla Bruno/Neto usa a visibilidade de Salvador e de seus grandes eventos para avaliar a força da gestão municipal.
Polarização à Flor da Pele na Bahia
Especialistas em política veem 2026 como o ano do 'tudo ou nada' para a oposição baiana. De um lado, o governador Jerônimo Rodrigues conta com a estrutura do governo estadual e o apoio do Governo Federal para tentar a reeleição. Do outro, Bruno Reis e ACM Neto buscam provar que o ciclo petista na Bahia, que começou em 2007, está chegando ao fim.
A participação de ACM Neto na abertura do Carnaval é cheia de simbolismo político. Ela transforma um evento tradicional em um 'termômetro' antecipado das eleições estaduais. Mesmo sem cargo oficial, Neto continua sendo a figura central da oposição. Sua presença ao lado de Bruno Reis e Jerônimo Rodrigues cria um cenário de confronto direto de ideias e narrativas. A visita recente do presidente Lula à Bahia, no dia 6 de fevereiro, foi um movimento estratégico claro para fortalecer a base governista no estado e impulsionar a pré-candidatura de Jerônimo à reeleição, já que a Bahia é um dos principais 'portos seguros' do PT no Brasil.
“O Carnaval de Salvador é um exemplo de política pública que exige interdependência e cooperação intergovernamental. O sucesso do evento depende de como o Estado e o Município fazem convergir as ações, da segurança ao transporte. Essa necessidade operacional torna a presença conjunta das lideranças políticas um elemento natural e indispensável. A estratégia de ACM Neto ao se fazer presente no Carnaval de Salvador é clara: consolidar o capital político na maior vitrine do estado enquanto foca nas grandes cidades baianas, onde a oposição já possui um viés de força eleitoral.”
“Salvador, que concentra quase 18% do eleitorado baiano, funciona como o 'recado' definitivo dessa liderança. Ao aparecer ao lado de Bruno Reis, Neto não apenas reforça o domínio histórico na capital, mas sinaliza uma pré-campanha ativa que busca manter a visibilidade em centros urbanos estratégicos”, analisou o cientista político Cláudio André.

