O que era para ser um dos espaços mais cobiçados do Carnaval de Salvador, na Bahia, acabou virando cenário de uma operação policial de grande porte. O Camarote 305, conhecido pelo luxo e pelos ingressos que chegavam a custar R$ 4,8 mil, foi interditado antes mesmo da festa começar. O motivo? Uma investigação da Polícia Civil da Bahia que apura um esquema complexo de rifas ilegais, lavagem de dinheiro e possíveis elos com o crime organizado.
No centro da investigação está o influenciador Diogo Santos de Almeida, mais conhecido como Diogo 305. Ele é o proprietário do camarote e foi preso em flagrante na última quarta-feira (11), na região de Busca Vida, por ter em sua posse armas de fogo e munições, algumas de uso restrito da polícia. Sua prisão, antes em flagrante, foi transformada em preventiva, o que significa que ele segue detido sem prazo determinado para sair.
A Origem da Operação Falsas Promessas
A Polícia Civil da Bahia começou a desenrolar essa trama em 2024. As primeiras suspeitas surgiram de movimentações financeiras duvidosas, ligando traficantes de vários estados a influenciadores que usavam as redes sociais para promover rifas. Mas foi em 2025 que a investigação ganhou um novo fôlego.
Um avião avaliado em mais de R$ 12 milhões foi comprado por Diogo 305 junto com Manuel Ferreira da Silva Filho, que já era apontado por lavagem de dinheiro. Essa transação chamou a atenção da polícia, como explicou o diretor da Delegacia de Repressão a Ações Criminosas Organizadas (Draco), Fábio Lordelo.
“Quando houve essa comunicação dessa transferência de valores para aquisição desse avião, nós iniciamos o processo de investigação em relação ao investigado atual, Diogo.”
A compra do avião levantou a dúvida sobre de onde vinha tanto dinheiro, especialmente porque o padrão de vida ostentado por Diogo nas redes sociais parecia incompatível com a sua renda declarada.
Rifas de Centavos e Prêmios Milionários: O Esquema
Segundo a polícia, Diogo promovia rifas online onde uma cota podia custar apenas seis centavos, mas os prêmios eram carros de luxo (como um avaliado em R$ 200 mil) e cavalos de raça. Esse tipo de rifa, com valores muito baixos, serve para “espalhar” as vendas e dificultar que a polícia siga o rastro do dinheiro, que pode acabar nas mãos de organizações criminosas.
Lordelo esclareceu que rifas só são permitidas para ajudar causas filantrópicas, sem gerar lucro para quem as organiza.
“A rifa em si só pode ser feita com fins filantrópicos. Ela não pode gerar lucro para quem propaga essas rifas.”
A investigação também busca saber se os prêmios anunciados eram realmente entregues ou se tudo não passava de uma simulação para enganar as pessoas e lavar dinheiro do crime.
O Que Foi Encontrado: De Luxo a Armas
Durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão, tanto no camarote quanto na casa de Diogo 305, a polícia encontrou uma verdadeira fortuna em dinheiro e bens de luxo. Veja o que foi apreendido:
- R$ 130 mil em dinheiro;
- Cerca de dez veículos, incluindo uma Lamborghini de mais de R$ 2,5 milhões e duas SW4 blindadas com luzes e sirenes;
- Duas bicicletas elétricas;
- Uma pistola;
- Quase mil munições, incluindo as de calibre .556;
- Cinco carregadores de fuzil;
- Uma scooter subaquática;
- Caixas de som e 15 caixas de uísque;
- Caixas lacradas de iPhones e PlayStations;
- Um avião de mais de R$ 10 milhões, encontrado em um hangar.
Quando os policiais chegaram, Diogo tentou fugir, sendo perseguido por uma rodovia até ser alcançado e preso. Ele é acusado de explorar rifas ilegais, fazer parte de uma organização criminosa e lavagem de dinheiro. A Justiça ainda bloqueou cerca de R$ 230 milhões em bens e valores ligados ao esquema.
Até o advogado de Diogo 305 foi alvo da operação, sendo preso preventivamente por tentar acessar remotamente um celular que a polícia já havia apreendido, o que caracteriza obstrução da Justiça.
De Camarote de Festa a Posto de Polícia
A reviravolta no Camarote 305 é grande. Depois de ser interditado, a Justiça autorizou que o local, na Avenida Oceânica, na Barra, fosse transformado em um ponto estratégico para a polícia durante o Carnaval. Agora, o espaço serve para monitorar o circuito da festa, com direito a pouso e decolagem de drones de vigilância.
Essa operação contra Diogo 305 é parte de uma ação maior, a “Operação Falsas Promessas”, que já havia prendido outros influenciadores famosos no mundo das rifas online, como Ramhon Dias, José Roberto (“Nanam Premiações”) e Franklin Reis, além de policiais militares. O foco principal da polícia é cortar o dinheiro das organizações criminosas, enfraquecendo suas ações. O caso mostra como a ostentação nas redes sociais pode esconder uma realidade bem mais sombria e criminosa.

