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Bloco da Saudade celebra 40 anos de paixão e tradição no Carnaval de Salvador

O Bloco da Saudade completa quatro décadas transformando a nostalgia em festa, mantendo vivo o autêntico Carnaval de rua em Salvador, na Bahia, e encantando gerações.
Por Redação
Bloco da Saudade celebra 40 anos de paixão e tradição no Carnaval de Salvador

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No coração do Carnaval de Salvador, na Bahia, um bloco se destaca por sua história de amor e resistência: o Bloco da Saudade. Completando 40 anos de existência, o grupo nasceu de um desejo profundo de reviver os antigos carnavais e manter viva a essência da folia de rua, em uma época onde os trios elétricos começavam a dominar os desfiles. O Bloco da Saudade, fundado por Aniz Palma Cabral e amigos, transformou a nostalgia em uma bela tradição.

A Chama Carnavalesca que Nasceu na Saúde

A paixão de Aniz Palma Cabral pelo Carnaval começou cedo, no bairro da Saúde, em Salvador. Ainda menino, ele se encantava com os blocos que passavam pela Rua Jenipapeiro. Ele se lembra de como a magia da festa o cativou:

"Colocavam um palanque e os blocos eram convidados para se apresentar lá. Eu via muitos blocos, pessoas vestidas de careta. Como nós éramos muito pequenos, nossos pais não deixavam que a gente fosse para a Avenida. Então, a gente assistia o Carnaval no próprio bairro mesmo e era muito interessante", recordou Aniz, que hoje é presidente do bloco.

Essa vivência o levou a acompanhar o “Come Lixo”, um dos primeiros blocos da capital baiana, conhecido por suas críticas sociais. Foi ali, nos ensaios, que Aniz descobriu seu talento para a percussão. Aos 10 anos, a paixão foi tão grande que ele criou seu primeiro grupo: o “Filhos da Saúde”.

"Nós comprávamos caixotes de madeira e couro de cobra curtido e fabricávamos os nossos próprios instrumentos, fazíamos os tambores. As frigideiras das cozinhas de nossas mães serviam como se fossem agogô. Coisa bem arcaica. Na época, saíamos em fila indiana tocando esses instrumentos com um estandarte na frente. Aí nós arrecadávamos alguns cruzeiros para tomar guaraná. Coisa de criança mesmo. Foi quando eu entrei de vez na folia", contou ele sobre seus primeiros passos na festa momesca.

Nasce o Bloco da Saudade: Uma Resistência Sonora

Mais de três décadas depois, no verão de 1986, Aniz e um grupo de amigos no bairro da Saúde sentiram a necessidade de resgatar o Carnaval raiz. Os blocos de trio dominavam, mas Aniz sempre foi um entusiasta da percussão e dos instrumentos de sopro. Assim, nasceu a ideia do Bloco da Saudade, um bloco sem corda, que desafiaria a febre do momento.

O sucesso foi imediato e surpreendente. A ideia era desfilar apenas um dia, mas a energia contagiante fez o bloco sair no sábado e voltar na segunda-feira. Eles faziam o trajeto do bairro da Saúde até a Avenida Sete de Setembro, seguindo na contramão dos trios elétricos. "Quando o bloco de trio vinha, nós parávamos. Aí depois continuávamos fazendo a festa. Íamos na contramão", explicou Aniz.

A força do movimento chamou a atenção, e o Bloco da Saudade estampou as páginas do Jornal A TARDE logo no ano de sua criação, um feito que se repetiu em diversas outras ocasiões.

Adaptação e Reconhecimento ao Longo dos Anos

Mesmo com a proposta de preservar o passado, o Bloco da Saudade soube se adaptar. Uma das mudanças mais significativas veio em 1995, quase dez anos depois de sua fundação, quando o bloco começou a aceitar mulheres em seu desfile. "E foi um sucesso! O bloco cresceu assustadoramente", comemorou Aniz.

A banda também passou por transformações. Inicialmente, o grupo contava com percussão, acordeão, violino, banjo e escatela. Com a chegada do público feminino, a bateria foi incorporada, enquanto os instrumentos de sopro se mantiveram. Uma regra de ouro, porém, nunca mudou: "O bloco nunca colocou som mecânico, nem alto-falantes. Desde o início é totalmente acústico. Em 40 anos, nunca tivemos caixa de som", garantiu o presidente.

Um momento inesquecível para Aniz foi o reconhecimento do então presidente da Bahiatursa, Paulo Gaudenzi, que se emocionou com a espontaneidade do bloco e ofereceu apoio. Ao longo de sua trajetória, o Bloco da Saudade recebeu a presença de grandes nomes como o ator Antônio Pitanga, o sambista Edil Pacheco e o saudoso Batatinha, que foi inclusive homenageado pelo grupo. "São momentos que marcaram muito a nossa trajetória", destacou Aniz.

Legado e a Celebração do "Verdadeiro Amor pelo Carnaval"

Hoje, aos 72 anos, Aniz Palma Cabral se emociona ao ver foliões de todas as idades, especialmente os mais velhos, participando e revivendo memórias nas avenidas. "Me emociona muito ver pessoas da melhor idade se emocionando muito na avenida, sentindo emoção ao relembrar o passado, de relembrar as músicas, verdadeiras melodias cantadas. Isso me emociona muito até hoje", confessou.

Ele deseja que o Bloco da Saudade continue por muitos anos, mantendo vivo o "verdadeiro amor pelo Carnaval" para as futuras gerações. "O legado fica para as pessoas que gostam do verdadeiro carnaval, da verdadeira música popular brasileira. É isso que eu quero: que o bloco perdure por muito mais que outros 40 anos. Que fique para aqueles que amam o verdadeiro carnaval", expressou.

Para Aniz, o Carnaval não é algo que se prepara; é parte de sua essência. "Eu não faço nenhum tipo de preparação especial. Eu vivo o carnaval o ano inteiro. Para mim é algo natural. Eu já nasci pronto para o carnaval", concluiu, demonstrando sua paixão inabalável.

Programação do Carnaval 2026

Em 2026, o Bloco da Saudade celebra seu “Jubileu de Esmeralda na passarela do samba!”. Com mais de 1.400 associados e uma banda composta por 130 músicos de sopro e percussão, o grupo promete embalar foliões de todas as gerações com sambas, clássicos e músicas da MPB, resgatando a essência do Carnaval de rua.

Confira a programação dos desfiles neste ano:

  • Sábado, 14 de fevereiro: Circuito Osmar (Campo Grande) ao Batatinha (Pelourinho). A concentração será às 11h, na rua Araújo Pinho, no Canela.
  • Segunda-feira, 16 de fevereiro: Circuito Osmar (Campo Grande) ao Batatinha (Pelourinho). A concentração será na rua Araújo Pinho, no Canela.
  • Terça-feira, 17 de fevereiro: Desfile no Santo Antônio Além do Carmo, com concentração às 15h, no Largo do Santo Antônio Além do Carmo.

Os interessados em participar podem adquirir a fantasia por R$ 430,00, via PIX ou em até 5x no cartão, entrando em contato pelos números (71) 98141-0026 e (71) 98828-2236.