O governo brasileiro negou o visto de entrada no país a Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado dos Estados Unidos, o que gerou repercussão na imprensa internacional e reacendeu o debate sobre as relações entre Brasília e Washington. A decisão foi confirmada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que associou a medida a um bloqueio anterior de vistos americanos para o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
O episódio ocorreu após o cancelamento do visto do funcionário americano, que planejava participar de um evento em São Paulo e visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo interlocutores do Itamaraty, a revogação do visto para o assessor de Trump se deu por "omissão e falseamento de informações" relevantes sobre o motivo da viagem.
De acordo com integrantes do governo, Beattie informou apenas que participaria do Fórum Brasil-EUA de Minerais Críticos e de reuniões com autoridades brasileiras. Ele não mencionou a intenção de visitar Bolsonaro em Brasília, o que foi considerado uma falha na declaração.
Repercussão e contexto diplomático
O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) após a defesa do ex-presidente solicitar autorização para a visita. Inicialmente, o ministro Alexandre de Moraes autorizou o encontro, mas reconsiderou a decisão no dia seguinte. Moraes levou em conta informações enviadas pelo chanceler Mauro Vieira, que detalhou o conteúdo do pedido de visto feito em Washington.
Na decisão, Moraes destacou que a visita não estava vinculada às atividades oficiais declaradas pelo assessor. Ele citou o risco de "indevida ingerência em assuntos internos", argumento apresentado pelo Itamaraty ao tribunal. Bolsonaro cumpre pena na chamada Papudinha por decisão do Supremo, no âmbito das investigações relacionadas à tentativa de golpe após as eleições de 2022.
Em agenda no Rio de Janeiro, o presidente Lula confirmou que determinou a proibição da visita de Beattie ao país. "Aquele cara americano que disse que vinha pra cá, pra visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar e eu o proibi de vir ao Brasil, enquanto não liberar os vistos do ministro da Saúde, que está bloqueado", disse Lula. Ele acrescentou que "bloquearam o visto do Padilha, o visto da mulher dele e o visto da filha dele de 10 anos".
O episódio foi interpretado por veículos estrangeiros como mais um capítulo da relação tensa entre Brasil e Estados Unidos. O jornal britânico The Guardian destacou que o caso expõe divergências persistentes entre os dois países, apesar de uma relativa reaproximação entre Lula e o ex-presidente americano Donald Trump no final do ano passado.
A agência Reuters ressaltou o impacto diplomático, afirmando que Beattie, crítico do governo brasileiro, foi nomeado por Trump para um cargo de consultor sênior para monitorar o país sul-americano. Já o The New York Times apontou que a tentativa de visita levantou preocupações sobre possível interferência política externa.
Apesar da repercussão internacional, integrantes do governo brasileiro classificaram o episódio como um caso isolado. Nos bastidores do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, a situação é tratada como um "episódio isolado de má-fé diplomática", e não como uma crise bilateral com os Estados Unidos. Por esse motivo, segundo fontes do governo, não há preocupação de que o episódio comprometa um eventual encontro entre Lula e Trump, que ainda não tem data definida.

