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Terreiro em Salvador é alvo de ataque com pichações de ódio religioso

Um terreiro Bantu em Salvador foi pichado com as palavras “Assassinos” e “Jesus”, marcando um ataque de ódio religioso inédito em 33 anos. O sacerdote Tatá Mutá Imê expressou revolta, e o caso é investigado pela Polícia Civil.
Por Redação
Terreiro em Salvador é alvo de ataque com pichações de ódio religioso

Portões e paredes do templo foram violados -

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A comunidade do terreiro Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, localizado no bairro de Cajazeira 11, em Salvador, na Bahia, viveu momentos de revolta e perplexidade no último sábado, dia 17. Pela primeira vez em 33 anos de história, o espaço sagrado amanheceu violado, com as paredes e portões pichados com palavras de ódio religioso.

O sacerdote Tatá Mutá Imê contou que a descoberta aconteceu logo cedo, por volta das seis e meia da manhã. Uma filha de santo, ao chegar no terreiro, o alertou sobre as escritas. “Eu levantei umas seis e meia, tomei banho, e aí fui até a cozinha da roça, que é um pouco mais abaixo, e quando eu cheguei lá, uma filha de santo que tinha acabado de chegar, me perguntou: ‘meu pai, você já viu a pichação que fizeram na entrada da roça?’ Eu disse não. Ela falou: ‘pois é! está lá uma pichação, é melhor você subir e ver’”, relembrou o sacerdote, visivelmente abalado.

Ao chegar à entrada do templo de tradição Bantu, na Rua Geraldo Brasil, o impacto foi imediato. As palavras “Assassinos” e “Jesus” estavam pintadas em vermelho nos portões de acesso. A palavra “Assassinos” cobria o letreiro com o nome do terreiro e o portão de pedestres, enquanto “Jesus” foi pichada no portão maior, usado para carros.

“Quando a gente chegou lá e abriu o portão, estava lá escrito assassinos no plural. Cobrindo o letreiro do nome do terreiro, o portãozinho de entrada de pedestre, também todo pintado de vermelho. E o portão maior, onde entram os carros, escrito Jesus”, descreveu Tatá Mutá Imê.

A palavra “Assassinos” foi a que mais gerou indignação. “Quando eu vi, eu tomei um choque! Porque a palavra assassinos no plural é muito chocante. Eu fiquei me perguntando: assassino por quê? Eu assassinei quem? Quem são os assassinos?”, questionou ele, destacando o absurdo da acusação direcionada à sua comunidade, que sempre promoveu a paz e trabalhos sociais.

Um histórico de paz e a dor da intolerância

Tatá Mutá Imê afirmou que o ataque é um reflexo de ódio e ignorância religiosa. Ele acredita que o crime não foi cometido por uma única pessoa, mas por um grupo. “Não foi coisa de uma pessoa só, foi coisa de duas, três, quatro pessoas, que conseguiram fazer daquele jeito”, apontou o Tateto.

A violência simbólica choca ainda mais diante da história do terreiro. Durante 33 anos, o Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza manteve uma relação respeitosa com a vizinhança e nunca registrou conflitos com outros grupos religiosos. O sacerdote enfatizou o cuidado em realizar as atividades do terreiro em horários que não incomodassem os vizinhos, com as festas terminando antes das nove da noite. “Nunca, nunca, nunca. São 33 anos ali, só fazendo trabalho social”, reforçou.

O episódio ganha um significado ainda mais doloroso por ter acontecido poucos dias antes do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro. “Em pleno século XXI, quase no dia contra a intolerância religiosa, essas figuras fazem isso...”, lamentou Tatá Mutá Imê.

Reação da comunidade e investigação policial

Diante do ataque, Tatá Mutá Imê não demonstra medo, mas sim uma firme determinação em buscar justiça. “Eu não tenho medo. Eu vou convocar meu povo, o povo de santo, a gente vai partir pra cima”, disse ele, reforçando que a mobilização será pela justiça e pelo fim da intolerância.

O caso foi oficialmente registrado na Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin) na tarde de segunda-feira, dia 19. A Polícia Civil, por meio de sua assessoria, informou que está investigando o ocorrido como “crimes de dano e intolerância religiosa”. Além das pichações, a ocorrência menciona que um equipamento eletrônico do templo também foi danificado. Diligências estão sendo realizadas para identificar e responsabilizar os autores.

A Frente Nacional Makota Valdina, em parceria com o terreiro, divulgou uma nota de repúdio, classificando o ataque como racismo religioso e crime de ódio. O documento destaca que a pichação com as palavras “Assassinos” e “Jesus” representa uma violação direta à liberdade religiosa e à dignidade das religiões de matriz africana. A nota ressalta que tanto o Estatuto da Igualdade Racial quanto a Constituição Federal garantem o livre exercício da fé e exigem a responsabilização dos criminosos.

“Tal ação não é apenas uma ofensa à nossa comunidade religiosa, mas configura um ataque direto à liberdade de crença, ao direito constitucional de culto e à dignidade das religiões de matriz africana. Trata-se de um crime motivado por ódio religioso, que reforça estigmas, incita a violência simbólica e perpetua o racismo estrutural historicamente imposto aos nossos povos”, afirma um trecho da nota.

Denúncias de racismo e intolerância religiosa podem ser feitas pelo site delegaciavirtual.sinesp.gov.br/portal/ ou diretamente na Decrin, localizada na Rua Padre Luiz Figueira, no Engenho Velho de Brotas, em Salvador.