O crime organizado no Brasil está passando por uma grande transformação, e a Bahia sente o impacto direto dessa mudança. Grandes facções criminosas do Rio de Janeiro, principalmente o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP), expandiram sua atuação para o estado nordestino, reorganizando as forças do crime e intensificando a violência.
Essa chegada não é apenas um movimento isolado; ela importou antigas rivalidades cariocas para o território baiano, agravando os conflitos que já existiam por aqui e dividindo o cenário criminoso em dois grandes blocos. De um lado, está o grupo conhecido como “tudo2”, sob a liderança do Comando Vermelho. Do outro, o bloco “tudo3”, que une o Bonde do Maluco (BDM), uma facção criada na Bahia, ao Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e agora também ao TCP.
Como o Rio de Janeiro Influencia a Bahia
A entrada do Comando Vermelho na Bahia foi bastante agressiva. O objetivo era retomar áreas que antes estavam sob o controle do Bonde do Maluco. O BDM, que já teve laços com o PCC, começou a se aproximar do Terceiro Comando Puro, criando um novo cenário de alianças e disputas.
No Rio de Janeiro, o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro (TCP) e o Amigo dos Amigos (ADA) são os grupos de maior destaque no tráfico de drogas. Além deles, milícias armadas e o jogo do bicho também têm grande influência. Mas, na Bahia, a presença é mais marcante do CV e do TCP, enquanto o Amigo dos Amigos não mostra atuação significativa no estado.
Conheça as Principais Facções
Comando Vermelho: Da Prisão à Liderança Nacional
O Comando Vermelho nasceu em 1979, dentro do antigo Presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Conhecido como “Caldeirão do Diabo” por sua violência, o local abrigava presos comuns e políticos durante a ditadura militar. Ali, o grupo, que inicialmente se chamava Falange Vermelha, começou a ganhar forma. William da Silva Lima, apelidado de “Professor”, foi uma de suas figuras centrais, condenado por crimes como assaltos a banco e sequestros.
A partir dos anos 1990, o CV consolidou sua força e passou a dominar vastas regiões do Rio de Janeiro. Hoje, é considerado a maior facção do Rio e uma das maiores do país, controlando mais da metade das áreas dominadas por grupos armados no Grande Rio. Seu modo de operar lembra as máfias, controlando o tráfico de drogas, o comércio de armas e até usando novas tecnologias, como a fabricação clandestina de armas e drones em confrontos.
Terceiro Comando Puro: Ascensão e Símbolos Religiosos
O Terceiro Comando Puro surgiu em 2002, depois que o antigo Terceiro Comando se enfraqueceu. Esse grupo havia se formado no final dos anos 1990 para rivalizar com o CV. O TCP se reorganizou após conflitos internos e rebeliões nas prisões cariocas.
Atualmente, o TCP é a segunda maior facção do Rio de Janeiro. Ele domina áreas estratégicas como o Complexo de Israel, na Zona Norte da capital, que inclui comunidades como Parada de Lucas, Cidade Alta e Vigário Geral. Nestes locais, símbolos religiosos, como estrelas de Davi, passaram a marcar o território da facção. O grupo usa a religião como forma de controle social, com líderes que se apresentam como evangélicos para legitimar sua autoridade. O TCP também se beneficiou de alianças com milicianos para expandir sua atuação.
Amigo dos Amigos: De Rival a Grupo de Menor Influência
O Amigo dos Amigos nasceu em 1998, após uma violenta separação dentro do Comando Vermelho, com muitas traições e assassinatos entre as lideranças. Nos anos 2000, o ADA chegou a disputar áreas importantes no Rio, mas com o tempo perdeu muita força.
Hoje, o ADA é a facção com menos influência entre as três, controlando apenas uma pequena parte da capital fluminense e sem presença significativa em outras regiões metropolitanas. Como mencionado, não há sinais de que o Amigo dos Amigos esteja atuando de forma estruturada na Bahia.
Impacto da Expansão na Segurança Pública
“A presença de facções cariocas na Bahia é um fenômeno que chamamos de 'nacionalização do crime organizado'. Eles trazem consigo suas alianças, seus métodos e suas rivalidades, tornando os conflitos muito mais complexos e afetando diretamente a segurança de todos.”
Na Bahia, o avanço do Comando Vermelho e do Terceiro Comando Puro não só redesenhou o mapa do crime, como também intensificou as disputas locais. Isso resultou em um cenário de blocos rivais e de violência que não para, um reflexo direto das guerras que já acontecem há décadas nas periferias do Rio de Janeiro.

