Um novo estudo acende um sinal de alerta para quem busca emagrecer usando medicamentos de última geração, conhecidos popularmente como 'canetas'. Uma pesquisa robusta, divulgada no prestigiado British Medical Journal (BMJ), revela que pacientes que param de usar injeções como Wegovy (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) tendem a recuperar o peso perdido em uma velocidade até quatro vezes maior do que aqueles que apostam em métodos mais tradicionais, como dietas e exercícios físicos.
A análise, que reuniu dados de 37 estudos e mais de 9 mil participantes, apontou um fenômeno preocupante de 'efeito rebote' acelerado. Enquanto os usuários dessas injeções conseguem perder até um quinto do seu peso corporal, a interrupção do tratamento resulta em um ganho médio de 0,8 quilos por mês. Nesse ritmo, o paciente pode voltar ao peso original em apenas um ano e meio. Em contraste, quem emagrece com dietas e exercícios recupera o peso de forma bem mais lenta, cerca de 0,1 quilos por mês.
A explicação por trás da fome avassaladora
A rápida retomada dos quilos perdidos tem uma explicação biológica clara. Esses medicamentos atuam imitando o hormônio GLP-1, que é o responsável por sinalizar a saciedade ao nosso cérebro. Ou seja, eles ajudam a 'desligar' a sensação de fome. Quando as doses são suspensas, o corpo sofre um verdadeiro choque metabólico.
Muitos pacientes relatam a sensação como se um 'interruptor' da fome fosse desligado, ativando uma vontade instantânea e incontrolável de comer.
“Foi como se algo se abrisse na minha mente e dissesse: 'Coma tudo'”, descreveu uma das participantes dos estudos. Adam Collins, especialista em nutrição da Universidade de Surrey, reforça que a forma como o medicamento age no sistema nervoso central torna o abandono abrupto do tratamento um desafio enorme para o paciente.
Custo elevado e a questão do tratamento contínuo
No Brasil, o acesso a essas 'canetas' ainda é um grande desafio por causa do alto custo. A dose inicial do Mounjaro, por exemplo, que chegou às farmácias em maio de 2025, custa cerca de R$ 1.400 por uma caixa com quatro doses. Como esses medicamentos não estão disponíveis pelo SUS, e as empresas fabricantes defendem que a obesidade é uma 'doença crônica', o cenário sugere uma dependência financeira e medicamentosa de longo prazo para quem busca manter o peso.
A farmacêutica Novo Nordisk, que fabrica o Wegovy, argumenta que o tratamento precisa ser contínuo, fazendo um paralelo com o manejo de doenças como a hipertensão. No entanto, autoridades de saúde, como o NHS britânico, são mais cuidadosas. Lá, o Wegovy tem um limite de prescrição de dois anos no sistema público, justamente para evitar o uso indiscriminado e o que pode ser uma dependência eterna.
Não é uma solução mágica, alertam médicos
No final de 2025, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) expandiu a indicação do Wegovy para incluir o tratamento de gordura no fígado (esteato-hepatite), consolidando ainda mais o medicamento no mercado nacional. Mesmo assim, os médicos são categóricos: a 'caneta' não é uma solução mágica isolada.
“O uso deve ser acompanhado de alimentação saudável e atividade física”, afirma a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro. Sem a mudança de hábitos, o ponteiro da balança parece destinado a subir novamente assim que a última dose do medicamento for aplicada.

