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Carlinhos Brown explica mudança de nome do Apaches para Apaxes

Carlinhos Brown revelou o simbolismo por trás da mudança do nome do bloco Apaches para Apaxes em 1993, buscando paz e proteção ambiental. O bloco, que tem uma rica história e sofreu com estigmas, luta para reerguer-se no Carnaval da Bahia com apoio de artistas e novas parcerias.
Por Redação
Carlinhos Brown explica mudança de nome do Apaches para Apaxes

Carlinhos Brown volta às origens e vira tema do Apaxes do Tororó no Carnaval 2026 -

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Em 1993, um convite inesperado chegou ao presidente do bloco carnavalesco Apaches do Tororó, Adelmo Costa. O músico Carlinhos Brown sugeriu uma mudança curiosa na grafia do nome do bloco, trocando o ‘ch’ por ‘x’. Na época, Costa não viu um motivo forte para a alteração. Mas em um encontro posterior, Brown, que sempre teve uma ligação profunda com a agremiação, explicou a ideia que mudaria a história do bloco.

A troca tinha um significado simbólico poderoso. As três primeiras letras formariam ‘APA’, sigla para Área de Proteção Ambiental. Já com o ‘x’, as letras do meio (‘pax’) remeteriam à palavra latina para paz. Além disso, o ‘x’ está no coração da palavra ‘axé’. Para Adelmo Costa, o argumento de marketing foi forte o suficiente para aceitar a proposta. Assim nascia o Apaxes do Tororó.

Uma história de luta e resiliência no Carnaval da Bahia

Fundado em 1968 por membros da escola de samba Filhos do Tororó, o bloco surgiu para rivalizar com o Caciques do Garcia. Por décadas, o Apaches, e depois Apaxes, foi muito mais do que um bloco de Carnaval. Ele se tornou um espaço fundamental de socialização para os jovens negros do Tororó, em Salvador, na Bahia. Era um lugar de orgulho, onde se exibiam penteados black power e roupas inéditas a cada fim de semana, como contou Adelmo Costa em uma entrevista há quatro anos.

Mas, por trás da mudança de nome e dos simbolismos, o bloco enfrentava e ainda enfrenta desafios para retomar seus tempos de glória. Hoje, mais de três décadas depois da alteração, o Apaxes, que já arrastou mais de sete mil pessoas e foi um divisor de águas, luta para recuperar o vigor.

Um dos momentos mais difíceis aconteceu no Carnaval de 1977. Um incidente envolvendo um folião com fantasia de bloco indígena e uma integrante de outro bloco no Corredor da Vitória marcou profundamente. Esse evento, somado a outras ocorrências, estigmatizou os blocos indígenas, que entraram em um período de decadência.

“Parece que a mulher era casada com um figurão e a partir daquilo começou uma perseguição aos blocos indígenas. Havia discriminação com os blocos afros, mas os homens com fantasias de blocos indígenas passaram a ser perseguidos”, revelou o atual presidente do Apaxes, que sucedeu o lendário Antônio Belmiro, o Toninho Apache.

Apesar das dificuldades, a história musical do bloco é rica, com composições de nomes como Nelson Rufino (vencedor do primeiro Festival do Apaches do Tororó em 1970 com “Blusão do Ano Passado”), Paulinho do Reco, Almir Santos e a famosa “Samba da Fumaça”, de Clarindo Silva e Silvio Mendes.

Carlinhos Brown e o futuro do Apaxes

Iniciativas para reerguer o bloco têm acontecido desde os anos 1990. Atualmente, o Apaxes desfila anualmente, mas de forma precária. Adelmo Costa estima que, para bancar todos os custos, seriam necessários pelo menos R$ 500 mil. O bloco conseguiu R$ 150 mil via programa Ouro Negro do Governo do Estado, valor que, segundo Costa, é insuficiente para cobrir todas as despesas, como trazer representantes dos povos originários e bancar a bateria.

Nomes importantes como Lícia Fábio e Daniela Mercury já apoiaram o Apaxes. Este ano, o bloco inova com uma parceria com o artista e pesquisador indígena Caboclo de Cobre. A colaboração inclui três shows na Praça Tereza Batista, no Centro Histórico, durante o Carnaval, e uma proposta de modernização estética que mescla o samba tradicional com música eletrônica.

“Esse projeto foi pensado para que o Apaxes recupere o seu vigor”, afirma Caboclo de Cobre, também conhecido como Luiz Guimarães e Itupynijú.

Carlinhos Brown, o grande cacique do Candeal, é o homenageado do desfile deste ano, com o tema “Carlinhos Brown – A Volta do Rei de Oyó à ‘Tribo Americana’ Apaxes do Tororó”. Ele se sente como um filho que volta para casa.

“Foi no Apaxes que descobri minha paixão por baterias de samba-angola, que dão origem rítmica aos blocos afros. Foi na liderança do Apaxes que surgiu a força dos blocos afros na Bahia”, destaca Brown.

O músico também ressalta as inovações históricas do bloco. Antes mesmo dos trios elétricos, o Apaxes já dava voz a cantores em carros de som. Brown ainda atribui ao bloco a organização do Carnaval com estruturas como banheiros e os primeiros camarotes de rua. Para ele, o Apaxes se tornou um verdadeiro conglomerado de etnias e lideranças indígenas.

Carlinhos Brown enfatiza que o bloco continua se atualizando, sem precisar ser exatamente o que foi no passado, quando as fantasias indígenas rivalizavam com as “internacionais”. Ele vê o Apaxes como um bloco tão grandioso quanto o Filhos de Gandhy e defende que ele continue liderando o retorno das etnias indígenas ao centro do Carnaval. “O que o Apaxes precisa é de força e apoio financeiro para ser o que é, e para que sejam reconhecidos como grandes organizadores do Carnaval e desse movimento educacional e urbano na Bahia”, conclui o artista.